O que é CRUZ? II

Cristo pregado na cruz, Gerard Davi em 1480
A cruz, elevação à glória.
No pensamento de João, a cruz já não é simplesmente um sofrimento, uma humilhação, que vem a ter ainda assim um sentido pelo desígnio de Deus e por seus efeitos salutares; ela é já a glória de Deus antecipada. A tradição anterior, aliás, jamais a mencionava sem lembrar em seguida a glorificação de Jesus. Mas para João nela Jesus já triunfa, retomando, para designá-la, o termo que até então conotava a exaltação de Jesus ao céu (At 2.33 e 5.31), aponta com ele o momento em que o Filho do Homem foi elevado (Jo 8.28 e 12.32), como uma nova serpente de bronze, sinal de salvação (Nr 21.4-9).

 Em seu relato da Paixão o evangelista João diz que Jesus para ela se encaminha com majestade. Nela sobe triunfalmente, pois é ali que ele funda a sua Igreja dando o Espírito Santo, e deixando fluir do seu lado o sangue e a água. Daí em diante é preciso olhar para aquele que foi transpassado, pois a fé se dirige ao crucificado, cuja cruz é o sinal vivo da salvação. No mesmo espírito, parece que o Apocalipse viu através desse lenho salvador o lenho da vida, através da árvore da cruz a árvore da vida (Ap 22.2, 14 e 19).

A cruz, marca do cristão
A cruz de Cristo.
Revelando que duas testemunhas tinham sido martirizadas onde Cristo foi crucificado, o Apocalipse identifica o destino dos discípulos com o do Mestre. É o que já exigia Jesus: Se alguém quer vir em meu seguimento, negue-se a si próprio, tome sobre si a sua cruz e me siga (Mt 16.24). O discípulo não só deve morrer para si mesmo, de forma que a cruz que ele carrega é o sinal de que ele morre para o mundo, de que ele rompeu todos os seus laços naturais (Mt 10.33-39), de que ele aceita a condição de perseguido a quem possivelmente se há de tirar a vida (Mt 23.34). Mas ao mesmo tempo ela é também o sinal da sua glória antecipada (cf. Jo 12.26).

A vida crucificada.
A cruz de Cristo que, segundo Paulo, separava as duas economias da Lei e da fé, torna-se no coração do cristão o limite entre os dois mundos da carne e do espírito. Ela é sua única justificação e sua única sabedoria. Se ele se converteu, é porque aos seus olhos foram pintados os traços de Jesus Cristo na cruz. Se está justificado, não é absolutamente por suas obras da Lei, mas por sua fé no Crucificado; pois foi ele próprio crucificado com Cristo no batismo, de maneira que está morto para a Lei para viver para Deus e nada mais tem a ver com o mundo. Por isso ele põe sua confiança unicamente na força de Cristo, senão se apresentaria como um inimigo da Cruz (Fp 3.18).

A Cruz, título de glória do cristão.

Na vida quotidiana do cristão, o velho homem foi crucificado (Rm 6.6), de modo que ele está plenamente livre do pecado. Seu julgamento está transformado pela sabedoria da cruz (I Co 2). Por esta sabedoria ele se tornará, a exemplo de Jesus, humilde e obediente até à morte, e morte de Cruz (Fp 2.1-8). De modo mais geral, deve contemplar o modelo de Cristo que sobre a cruz levou nossos pecados no seu corpo para que, mortos para os nossos pecados, vivamos para a justiça (I Pe 2.21-24). Enfim, se é verdade que se deve sempre temer a apostasia, que levaria a crucificar de novo por própria conta o Filho de Deus (He 6.6), ele pode contudo exclamar orgulhosamente com Paulo: De minha parte, que eu jamais me glorie a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo que fez do mundo um crucificado para mim e de mim um crucificado para o mundo (Gl 6.14).

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