Usar ou portar?

Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante que qualquer espada de dois gumes, e penetra até o ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. Hebreus 4.12

A captura de Jesus, anônimo, cerca de 1520
A diferença semântica entre essas duas palavras parece que perdeu completamente o seu sentido na maneira como ambas são usadas hoje. Há bem pouco tempo as pessoas que usavam serviços de empresas especializadas ou de profissionais liberais eram chamadas de clientes, pacientes ou mesmo de fregueses. Mas para empobrecimento da nossa língua todo mundo hoje não passa de usuário. E o que é pior, para muitos, assim como para mim, essa palavra ainda permanece muito ligada ao consumo de drogas ilegais.


A discrepância da palavra portar, no entanto, já é um pouco mais antiga. Enquanto muito antigamente, o uso dessa palavra enaltecia a destreza do profissional, quando este era quem fazia o melhor uso de uma ferramenta. Ela era usada, por exemplo: para o alfaiate que portava bem a sua tesoura, para o lavrador que sabia portar a sua enxada etc. Mais uma vez a nossa língua foi depreciada, quando esta palavra passou a ser usada quase que exclusivamente para aqueles que possuem um documento legal de posse de arma de fogo. No português atual só é possível portar armas, mais nada.

Dei essa volta toda para falar objetivamente dos diferentes usos que a Bíblia, que ainda é para nós cristãos Sagrada, tem recebido dos seus vários tipos de leitores, ou usuários, para usar um termo da moda. E convoco a maior rede social do momento, o Facebook para ser a minha principal testemunha do que estou tentando mostrar. Nele encontro os principais focos daquilo que anteriormente foi chamado de discrepância. Nele podemos ver tanto o uso ingênuo de textos bíblicos fora do seu contexto, como também a incrível habilidade que as pessoas que a contestam têm de descobrir os seus textos mais obscuros. A capacidade inata de ambos encontrar e citar justamente os trechos onde se faz necessária a profunda e complexa interpretação. Aqueles que o contexto original se mostra flagrantemente desconhecido.

Ainda essa semana li uma postagem que citava Mateus 10.34 e 35, em que Jesus afirma que não veio trazer a paz e sim a espada, e causar a divisão entre pais e filhos. Logicamente que leitura descontextualizada desses versículos é, sob todos os aspectos, abominável, mas será que já paramos para pensar o que Jesus pretendia dizer com isso? É justamente aqui que começa a se estabelecer a diferença entre usar e portar.  

A Bíblia, assim usada, nos serve de igual modo para calçar argumentos e pés de mesa. Qualquer pessoa minimamente bem intencionada veria, ainda no evangelho de Mateus, que Jesus condena veementemente Pedro pelo uso da espada: Embainha a tua espada, pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão. Em Lucas 22.36 a tal discrepância novamente se acentua, quando ele diz: quem não tem espada venda a sua capa e compre uma. Quando percebeu que os discípulos, assim como a postagem do Facebook, entenderam erradamente que ele falava de uma arma, completamente transtornado com o mau uso das suas palavras disse um retumbante basta.

Não tem como não entender que Jesus estava falando que veio trazer uma espada que dividiria o mundo em duas realidades distintas: aqueles que com ele ajuntavam e aqueles que separavam, aqueles que com renúncia entravam no Reino de seu Pai, e os que concorriam contra. Há dois dias citei o exemplo de uma divisão que se instaurou na família de um pastor, cuja filha, abandonando a educação cristã que recebera na infância, orientava sua vida pelos conselhos de um guru indiano. E essa não é uma realidade tão nova. Desde o princípio a história da igreja tem registrado casos assim.

Mas estou convicto de que só existe uma maneira de combater com eficácia o uso da Bíblia pelos iminentes usuários, e há muito ela foi sugerida por Paulo a Timóteo: Procura apresentar-te diante de Deus aprovado, como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. Obreiro que maneja bem, já foi visto que não é aquele que sabe apenas usar, mas o que com todos os méritos sabe portar. Mas também, de nada adiantará saber portar a Palavra, enquanto ela for nós o que é para os que simplesmente a usam: palavra de argumento. A sua eficácia só transparecerá e a sua luz brilhará intensamente, quando ela for para nós o que foi para aqueles que a escreveram com seu próprio sangue: verdade absoluta.

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