O vale e a montanha I

Transfiguração de Cristo, Giovanni Bellini em 1490
Então Pedro disse a Jesus: — Como é bom estarmos aqui, Senhor! Se o senhor quiser, eu armarei três barracas neste lugar: uma para o senhor, outra para Moisés e outra para Elias. Leia Mateus 17.1-20

Texto baseado em sermão do rev. Garrison.

Parece que a nossa vida é composta e dois tempos antagônicos: altos e baixos. Um tempo de sucesso, triunfo e esperança e outro tempo de frustração, desânimo e até desespero. Nesse mesmo instante alguns de nós estão tomados pela sublimidade de um ou na tragédia do outro. Pior ainda, podemos estar atolados no meio dos dois, nem quente nem frio, apenas morto. Mas é importante que reconheçamos o nosso momento e os nossos sentimentos em relação a ele. E para isso temos que ser honestos conosco mesmo e nos perguntarmos: como estou me sentindo agora?


Nesse texto o evangelista está nos colocando no alto do monte do vale em que vivemos. Seu propósito é nos ensinar a viver no vale a mesma vida que gostaríamos de viver na montanha. Era um tempo estratégico para o ministério de Jesus. Ele já tinha se identificado como o Messias de Deus. Depois da declaração enfática de Pedro, não havia mais dúvidas entre eles. Mas quando Jesus lhes disse que o caminho do Messias ia levá-lo a Jerusalém, não para derrotar os inimigos romanos e sim para sofrer e morrer, a dúvida imediatamente voltou. Eles que estavam no monte do êxtase, voltaram para o vale do desânimo. Perguntavam entre si: que tipo de Messias é esse? Ficou claro que os discípulos precisavam de uma prova a mais. Mesmo antes de ir a Jerusalém, Jesus precisava mostrar os sinais de Deus sobre os seus propósitos como Messias. Por esta razão levou Pedro, Tiago e João de volta ao monte, para que eles vissem um sinal definitivo.

Jesus conhecia muito bem os vales próximos e distantes por onde eles iam passar antes de chegarem ao monte do calvário, onde ele subiria sozinho. Em um desses vales eles iriam encontrar um menino bastante perturbado e um pai transtornado e angustiado. Os discípulos tinham que ser preparados antes de enfrentar esses dois no vale, então Jesus os levou àquela montanha tão cheia de história e de significado para o povo de Israel. Lá em cima algo extraordinário aconteceu: Jesus foi transfigurado diante deles. Mateus nos diz que a verdadeira natureza de Jesus foi rapidamente manifestada. Não somente seu rosto resplandeceu, mas as roupas pouco atraentes de um galileu humilde se tornaram brancas como a luz. Um sinal intenso dado por Deus. Como é então, mesmo depois desse sinal os discípulos ainda tinham dúvidas? O sinal era mesmo definitivo? Vamos ver.

O que aconteceu a Jesus é o simbolismo do que ele quer que aconteça a nós nos altos dos montes por onde ele nos guia. Ele queria que Pedro, Tiago, João e todos nós confiássemos nele. Isso só acontece quando deixamos os vales do desânimo, e focamos as nossas expectativas unicamente em Deus. Quando estamos em contato com a energia dinâmica que criou todo esse mundo e com a expressão maior do amor encarnado, nós também somos transfigurados. Como precisamos desse momento de glória! Ele é mais precioso do que todos os elementos vitais juntos. Paulo sabia bem disso quando disse: II Co 4.6 – o Deus que disse: “da escuridão brilhará a luz” é o mesmo que fez a luz brilhar em nossos corações; isso para nos trazer o conhecimento da glória de Deus que brilha no rosto de Cristo.


Quando Simão Pedro viu Jesus transfigurado ficou sem palavras, mas logo em seguida mostrou o seu fervor religioso. Quando viu Moisés e Elias confirmando a divindade de Jesus, imediatamente quis fazer alguma coisa, quis construir algo. Em vez de gozar toda a glória de Deus daquele instante, em vez de deixar essa glória de Deus beneficiar as pessoas que ele havia deixado no vale, Pedro quis fazer algo religioso.

O fracasso dos discípulos no vale, assim como o nosso próprio fracasso, muitas vezes nos apaga a visão que vem do alto do monte. Pedro perdeu a visão do que ele testemunhou no monte porque seu coração continuava no vale. Os outros discípulos que Jesus havia deixado para trás estavam em dificuldades no vale. Um homem havia trazido seu filho muito doente para eles curarem. Lá havia também alguns escribas e fariseus, e a incredulidade destes influenciou negativamente os discípulos. Eles não puderam fazer nada. O seu fracasso com o rapaz estava sendo esquecido na discussão com os tais homens da lei. O povo viu logo que havia algo errado. Um menino sofrendo e os discípulos discutindo. Isso tudo causou uma indignação drástica em Jesus, que foi demonstrada através da seguinte pergunta: até quando terei que suportá-los?

Quem entre nós não tem sentido o peso dessa pergunta? Quem dentre nós não tem realizado tão pouco do que o poder de Cristo nos concede? Quem entre nós não tem sido impotente em ajudar as outras pessoas? Até quando ele terá que nos suportar? (continua)

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