A igreja e o mundo I

Caminhando para a igreja, Normal Rockwell em 1953

Texto elaborado a partir do esboço de um sermão do rev. Jonas Rezende pregado em 1970.

A História, no seu sentido mais profundo, deve ser para o cristão autêntico o caminho o que leva a uma posição firme e equilibrada face à crua realidade dos eventos concretos que vivemos. Conhecer a História é tomar consciência do contexto que nos envolve e do cenário no qual temos nos movimentado. Neste sentido, para o homem moderno que deseja se engajar, a História é bem mais importante que a Psicologia, pois amparados nela é temos a convicção de possuirmos a visão crítica adequada à situação.

O passado
Seja qual for o conceito que tenhamos do passado nessa nossa divisão artificial de tempo, a verdade é que podemos representá-lo, especialmente o passado mais recente, como um grande ponto de exclamação. A partir da descoberta da imprensa e do surgimento do Renascimento, no século XIX, a humanidade passou por uma fase brilhante e de brilhantes conquistas. No terreno das ciências de um modo geral, o avanço foi realmente fantástico. Presenciamos um mundo notadamente otimista. Todos os problemas pareciam ter solução através da técnica, que se desenvolvia a passos de gigante. 

A igreja cristã teve na sua vida o reflexo dessa fase áurea, justamente quando as missões reiniciaram com todo vigor, pois reinava nela a certeza de que se poderia implantar definitivamente o Reino de Deus com o trabalho das próprias mãos. Foi quando também se concluiu que o homem é bom, e que necessita apenas de orientação educativa. Porém, essa fase da História de otimismo, caracterizada com gigantesco ponto de exclamação, foi dramaticamente encerrada com duas sangrentas guerras mundiais. Analisemos, embora superficialmente, o que poderíamos chamar de perplexidade, náusea ou de contestação.

O presente
O presente que qualquer observador medíocre pode considerar problemático e caótico podemos caracterizá-lo como o ponto de interrogação que leva o homem às tensões e crises contemporâneas. São as ameaças de conflito que trazem à tona o medo coletivo da destruição total. É a demolição sistemática das velhas estruturas sem que nada seja colocado em seu lugar. O descrédito de todas as instituições, orientações do passado e escala de valores deixando o homem perdido como um satélite à deriva no espaço sideral. São os distúrbios emocionais e mentais que congestionam os consultórios psiquiátricos.

A falta de sentido que corrói de angústia os espíritos vencidos. É o atual fenômeno de Babel, onde cada um defende sua verdade em linguagem ininteligível ao outro; o isolamento humano no meio da massa; a falta de confiança; filosofias estranhas; comportamentos exóticos; religiosidade caricata; sofisticação; fuga da realidade através de todas as portas inventadas e das milhares de máscaras criadas para esse fim; lágrimas sem destino; sorrisos mecânicos; revolução; guerrilhas; racismo; ateísmo; morte.


A igreja também tem refletido esse estado de coisas que pode ser configurado em um enorme ponto de interrogação a martelar nossas vidas. É o abalo do dogma; da doutrina estática; das estruturas eclesiásticas milenares; o sentimento de ridículo nos serviços litúrgicos; a mecanização do culto; a falta de significação na linguagem religiosa; bancos sem jovens; jovens sem vida; o sentimento angustiante de confusão que domina aqueles que se dispõem a lutar nas fileiras militantes da igreja; o desacordo entre mentalidades sem respeito mútuo; o sacrifício de valores autênticos; a alienação dos que não podem estar satisfeitos, mas que se agarram ai navio que naufraga em águas revoltas. É o ponto de interrogação dilacerando nossas mentes tão terrível quanto o ferro em brasa marcando os animais da fazenda, levando muitos ateus a se alienarem nos templos e lançando cristãos autênticos fora da igreja.

É no meio da perplexidade que nos cerca que olhamos para a expectativa: Cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova em mim um espírito inabalável. Sl 51.10 (continua)

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