De volta a Luz

Massacre de Siquém, Ultimate Bible
Assim, chegou Jacó a Luz, chamada Betel, que está na terra de Canaã, ele e todo o povo que com ele estava. E edificou ali um altar e ao lugar chamou El-Betel; porque ali Deus se lhe revelou quando fugia da presença de seu irmão. Gênesis 35.6-7

Não sei dizer se essa atitude realmente funciona, mas, ao que parece, todos temos um lugar para fugir. Foi assim com Pedro, que tentou voltar à sua atividade pesqueira evitando estar frente a frente com Jesus; com os discípulos de Emaús, que retornaram à sua pequena aldeia após se decepcionarem com seu Mestre, na sua esperança de ver Israel liberta dos romanos; foi assim também com Jacó quando fugiu de seu irmão Esaú, após ter-lhe fraudado a herança.

Geralmente esses lugares de fuga, onde temos a pretensão de alcançarmos alguma segurança, são criados na nossa imaginação imediatamente após tomarmos ciência de que fizemos alguma besteira além da conta. Mas essas lembranças também podem nos sobrevir quando nos vemos em apuros pelas besteiras do outros. Não é muito comum, mas pode acontecer.

O problema que levou Jacó de volta a Luz, lugar em que passou a noite mais tenebrosa de sua vida e que em meio ao pavor teve o seu decisivo encontro com Deus, foi causado pela irresponsabilidade de dois dos seus filhos que se julgaram responsáveis pelo que imaginaram comprometer a honra da família, quando toda a situação já havia sido resolvida satisfatoriamente.

Dina, uma das filhas de Lia, fora violada pelo filho do rei das terras em que a família de Jacó estava provisoriamente habitando. Mas o rapaz ficara completamente apaixonado por ela e pediu ao pai que não medisse esforços para dá-la como esposa, pedido que o pai respondeu que sim, de imediato. Para isso, o rei de Siquém não somente franqueou a Jacó majorar em muito a valor do dote, como também estava decidido a dar a Jacó o que ele lhe pedisse além. Contudo, a exigência de Jacó foi colocada acima de qualquer patamar viável. Jacó simplesmente exigiu que para que a união acontecesse todo macho dentre os siquemitas fossem circuncidados, pois não seria lícito Diná dar-se em casamento a um filho de um povo incircunciso.

Entre a fé incipiente de Jacó e as praticas pagãs dos siquemitas, talvez a circuncisão fosse uma das poucas divergências. Fazendo-os circuncisos equivaleria a uma conversão total daquele ao judaísmo, mesmo que ressalvadas algumas diferenças. Mas estava diante de Jacó a possibilidade de iniciar um trabalho fantástico em prol da fé de Israel. E tudo foi jogado por terra pela traição de Simeão e Levi ao acordo firmado por Jacó com o rei Hamor, pelo simples desejo de vingança para restauração da honra da família. Por conta disso, o pequeno clã de Jacó, que já contava com a simpatia e aceitação daquele povo, teve que fugir apressado para Luz, com medo da represália dos reis vizinhos à barbárie cometida pelos filhos de Jacó, que, para o desconsolo da História da Salvação, a história secular registrou como o “Massacre de Siquém”.

Fico pensando quantas vezes isso não acontece em nossas igrejas. Em quando por discriminações e julgamentos que não nos competem violentamos aqueles a quem Deus tem acrescentado ao seu rebanho, mesmo que para isso tenha pagado por eles um valor absurdamente elevado. Nas quantas vezes a preservação da tradição e a defesa das doutrinas nos têm privado da companhia de pessoas, que justamente pelas suas diferenças teriam tanto a nos acrescentar.

Se por ventura ainda acharmos que não estamos perdendo muito, pelo menos vamos considerar que estamos perdendo uma bela festa de casamento. Um casamento em que o próprio Deus tenta a todo custo celebrar. O casamento em que o mundo aceitaria o básico da fé em Deus, e que, por este pequeno ato de fé, seria totalmente integrado ao grande rebanho de Deus sem mais nenhuma restrição. 

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