O definitivo e o transitório

Eliseu recusa os presentes de Naamã, Pieter de Grebber em 1637
Aproximou-se dele um leproso rogando-lhe, de joelhos: Se quiseres, podes purificar-me. Jesus, profundamente compadecido, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Quero, fica limpo! No mesmo instante, lhe desapareceu a lepra, e ficou limpo, e lhe disse: Olha, não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés determinou, para servir de testemunho ao povo. Mas, tendo ele saído, entrou a propalar muitas coisas e a divulgar a notícia. Marcos 1.40ss

O que pode fazer com que uma pessoa acate uma ordem absurda, para logo em seguida deixar de cumprir outra ordem bem mais plausível? Bem, não foi este o caso do leproso? Não foi exatamente ele quem cumpriu a ordem de se apresentar ao sacerdote? Como alguém que é reconhecido em sua comunidade como um leproso poderia, de uma hora para outra, se apresentar ao sacerdote como uma pessoa curada da lepra? 

É certo que a cura lhe veio como uma dádiva, ele simplesmente a aceitou. A fé em Jesus Cristo pode ser creditada como a sua única participação no processo. De alguma forma ele sabia que poderia curado. Ele sabia também que bastava tão somente que Jesus assim o quisesse. Sua fé se mostrava simples assim. A sua desobediência posterior é que fez com que descumprisse uma ordem direta de Jesus: Olha, não digas nada a ninguém. O leproso, por sua vez, alardeou antecipadamente o milagre, mesmo que este ainda não tivesse sido atestado por uma autoridade religiosa, que era quem podia considerá-lo curado.

No Primeiro Testamento temos outro leproso que foi curado, mas esse a despeito da sua fé. O general sírio Naamã teve uma atitude totalmente adversa, não aceitando de forma alguma as simples determinações do profeta, ainda que elas pudessem redundar na sua cura. Naamã também acreditava que poderia ser curado, por isso manifestou este desejo ao seu rei. Por razões que jamais saberemos ele acreditou piamente nas palavras que a adolescente judia, que era sua escrava. Caso contrário, ele nem teria feito a tal viagem. Porém, a sua desobediência fez com que a sua incredulidade se projetasse, de modo a ser conhecida por todos, mesmo que ele ainda sequer tivesse experimentado o processo simplista de cura.

Podemos ver que ambos os casos descrevem situações bem semelhantes: a existência de um mal; a inconformidade com a doença; o desejo de ser curado; a credibilidade nas palavras; a cura que vem de forma extraordinária; a desobediência em algum grau; a publicidade de algo de deveria permanecer em particular.

Então, onde podemos pontuar as diferenças se tudo parece ser tão igual? Podemos dizer que o leproso acatou o impossível e descumpriu o plausível, e que o general estava deixando de cumprir o que lhe pareceu impossível, para confiar no plausível do seu conhecimento. A princípio ele tinha razão. De fato, as águas dos rios da Síria eram mais abundantes e mais cristalinas que todos os rios de Israel. Se alguma água tivesse poder de curá-lo, esta água seria a do seu país. Assim como o leproso tinha todos os motivos para não acreditar em um homem que vivia cercado de prostitutas, publicanos, pecadores de todas as sortes, e, segundo relatos dos evangelhos, por uma legião de doentes que nunca foram curados.

Naamã saiu publicamente envergonhado do seu processo de cura. Sua vergonha fez com que tentasse de todas compensar o profeta. A despeito de toda euforia da sua cura, um clima de constrangimento tomou conta dele até o momento da sua partida. Já com o leproso foi tudo diferente. A sua submissão fez com que o milagre tomasse proporções incontroláveis. Ninguém, nem mesmo Jesus poderia conter a euforia daquele momento.

Jesus por mais de uma vez alertou: Aquele que se exaltar será humilhado, porém, aquele que se humilhar será exaltado. Na minha terra temos uma expressão que define apropriadamente cada um desses dois casos. Nós, os cariocas, diríamos isso de forma diferente: O leproso entrou como gato e saiu como leão. Naamã entrou como leão e saiu como gato.

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