Jesus andou sobre o mar, e daí?

Jesus caminha sobre as águas, Doré
Vendo-os em dificuldade a remar, porque o vento lhes era contrário, por volta da quarta vigília da noite, veio ter com eles, andando por sobre o mar; e queria tomar-lhes a dianteira. Eles, porém, vendo-o andar sobre o mar, pensaram tratar-se de um fantasma e gritaram. Pois todos ficaram aterrados à vista dele. Mas logo lhes falou e disse: Tende bom ânimo! Sou eu. Não temais! E subiu para o barco para estar com eles, e o vento cessou. Ficaram entre si atônitos, porque não haviam compreendido o milagre dos pães; antes, o seu coração estava endurecido. Mc 6.48ss

Esse é um texto em que para muitos o milagre da rouba a cena e coloca os demais elementos da narrativa em segundo plano, e o faz justamente quando o milagre nem mesmo é o tema central da mensagem. Tanto os céticos quanto muitos dos que creem em Jesus imaginam que a finalidade precípua do seu ministério era quebrar as leis fundamentais da natureza para poder se afirmar como o Messias que redimiria Israel. Imaginam também que, uma vez que vários outros atributos que o imaginário do povo fazia deste enviado de Deus, Jesus não demonstrava possuir, o milagre se prestaria, então, como substituto aceitável.

Mas sabemos pela leitura acurada dos evangelhos que Jesus não veio para fazer milagres e sim para implantar definitivamente o Reino de Deus. Os milagres que aconteceram, embora muitos, não foram em número satisfatório nem mesmo para os mais próximos, como foi declarado pelos caminhantes de Emaús ao próprio Jesus: Eu pensava que ele quem iria redimir Israel. Eles custaram a entender que os milagres aconteceram apenas como consequência e jamais como um fim em si mesmos. Tanto foi assim, que alguns desses milagres realizados por Jesus sequer haviam sido planejados, como no caso da cura da mulher com fluxo de sangue ou mesmo o da mulher sírio-fenícia.

Instigado que foi pelo ceticismo que parte do povo demonstrava em relação a ele, Jesus deixou claro que até mesmo os milagres têm por obrigação seguir um plano anterior estabelecido por Deus, e que todos têm uma função definida no grande plano de salvação de Deus: Na verdade vos digo que muitas viúvas havia em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou por três anos e seis meses, reinando grande fome em toda a terra; e a nenhuma delas foi Elias enviado, senão a uma viúva de Sarepta de Sidom. Havia também muitos leprosos em Israel nos dias do profeta Eliseu, e nenhum deles foi purificado, senão Naamã, o sírio.(Lucas 4.25-27)

Se retirarmos o foco do milagre em si e ampliarmos um pouco a nossa visão fazendo incidi-la sobre todo o contexto, aí poderemos ver que a intenção maior de Jesus era quebrar os corações endurecidos antes de quebrar as leis fundamentais da gravidade e da resiliência dos fluidos.

Antes de olharmos diretamente para o milagre temos obrigatoriamente que perceber algumas outras coisas que o transcendem:
Jesus vê a dificuldade dos seus discípulos;
Jesus vai ao encontro deles em meio á dificuldade;
Jesus quer se antecipar à necessidade momentânea deles;
Entra no mesmo barco de dificuldade que eles estão, e o faz em todos os sentidos, inclusive o literal;
Põe termo ao medo que havia se instaurado entre eles;
Dirimiu os resquícios das dúvidas que haviam ainda do milagre anterior, o da multiplicação dos pães e peixes.

Albert Einstein dizia que é mais fácil quebrar um átomo do que um preconceito. Jesus disse que e mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha que um rico entrar no Reino dos Céus. Por tudo que vimos até agora, com absoluta certeza podemos também afirmar que: é mais fácil andar sobre as águas tumultuadas de um mar bravio, do que quebrar a insensibilidade de um coração endurecido pelo ceticismo ou pela superstição.

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