Vinho novo I

Odre, novo  Niko Pirosmani em 1919
Ninguém põe vinho novo em odres velhos, pois o vinho novo romperá os odres; entornar-se-á o vinho, e os odres se estragarão. Pelo contrário, vinho novo deve ser posto em odres novos [e ambos se conservam]. E ninguém, tendo bebido o vinho velho, prefere o novo; porque diz: O velho é excelente. Lucas 5.37-39

Meditação baseada em sermão do rev. Garrison.

O objetivo desta parábola de Jesus é transparentemente claro. É o seguinte: uma mudança para ser efetiva tem que ser uma mudança radical. Eu não gosto disso. Prefiro uma mudançazinha aqui e outra ali, mas o propósito dessa parábola é realmente radical. Estamos sempre querendo curar os grandes males com pequenas doses de remédio, mas não é assim que funciona. Aqui nessa parábola Jesus está ilustrando a necessidade da administração de uma dose forte.

Os vinhos, na época de Jesus, eram armazenados odres feitos de couro de animas. Quando bem fechados eles eram bastante eficientes. Ainda não haviam inventado coisa melhor para fazer o vinho resistir à passagem do tempo. Mas com a passagem do tempo os odres ficavam velhos e secos. Ficavam também mais vulneráveis à pressão que o vinho exercia dentro deles. Esse problema era detectado pelas rachaduras que o coro apresentava. Se o vinho novo fosse colocado num desses odres velhos o resultado seria desastroso. O vinho está ainda fermentando, fazendo uma pressão ao eliminar seus gases que os odres velhos e inflexíveis não resistiam. O resultado Jesus já havia falado: era a perda tanto do odre quanto do vinho.

Uma coisa é certa: mesmo imbuídos das melhores intenções, se não compreendermos a tensão que sempre existiu e que existe ainda com mais força hoje entre o velho e o novo, estaremos perdidos e o nosso trabalho também. O ensino dessa parábola nos diz que um sistema tão inflexível, como aqueles dos fariseus, jamais poderia conter o vinho novo que Jesus estava trazendo. Simplesmente não servia. Por exemplo: o sistema de jejuns que os judeus praticavam não poderia ser modificado. Teria que ser abandonado e substituído. Cada geração, desde Jesus, que tentou armazenar o evangelho em vasilhas velhas se perdeu no seu propósito, mesmo que isso nos entristeça. Como disse Marcos falando dessa mesma parábola: Por isso o vinho novo precisa de odres novos.

Jesus contou essa parábola bem no início do seu ministério de ensino sistemático, por isso ela é tão apropriada. Nela, Jesus está prevenindo todo mundo, inclusive os seus discípulos, que não estava trazendo uma notícia requentada e que ele veio para reformar parcialmente o mundo. Foi dito a todos de uma forma bem contundente que o evangelho ia ser mesmo uma revolução. Ele termina com aquele versículo bastante estranho: Ninguém quer vinho novo depois de beber vinho velho, porque diz que o vinho velho é melhor.

Há aqui um paradoxo que mais parece uma contradição. Parece que este versículo contraria tudo que havia sido falado sobre o vinho novo. Só parece, mas não é. Este é o ponto chave da história e que normalmente passa despercebido. Quando é notado, o fazemos de forma literal, e assim perdemos o sentido que Jesus está querendo dar a ele. Parece que Jesus está dizendo que os velhos caminhos são melhores. Isso ele falou. Ponto final. Mas é justamente o contrário. Nós falhamos em não perceber que Jesus deveria ter um sorriso em seu rosto. A Nova Tradução na Linguagem de Hoje nos ajuda a entender melhor oi texto quando diz: E ninguém quer vinho novo depois de beber vinho velho, pois diz: “O vinho velho é melhor.” Os velhos hábitos velhos são melhores.

Uma vez libertos da presunção que Jesus nunca usou humor nos seus diálogos, não fica difícil ver o verdadeiro sentido deste versículo. Ele está dizendo que tem que haver um novo começo, e por isso os velhos caminhos não servem mais. Mas ao mesmo tempo, não devemos nos enganar pensando que a maioria das pessoas vai gostar do novo caminho. A maioria vai dizer não, porque sempre foi feito da maneira velha. Por isso, assim como o vinho velho, os velhos hábitos também são melhores. Eles vão pensar, na sua inocência, que estão nos dando algo bastante incisivo. Alguns vão se lembrar do seu passado e de como eram bons os odres velhos. Se já eram bons naquela época, porque não seriam bons hoje? Não vão dizer apenas que o velho é bom, mas que o velho é melhor.



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