Pedidos absurdos

De onde procedem guerras e contendas que há entre vós? De onde, senão dos prazeres que militam na vossa carne? Cobiçais e nada tendes; matais, e invejais, e nada podeis obter; viveis a lutar e a fazer guerras. Nada tendes, porque não pedis; pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres. Tiago 4.1ss
Fogo do céu, Basil Wolverto em 1950
A advertência da carta do apóstolo Tiago nos fala do grande perigo que há nas petições erradas que são dirigidas a Deus em oração. Não fala, contudo, que o perigo de tais petições está na possibilidade delas se tornarem reais pelo poder da oração, mas porque elas denunciam as más intenções que estão escondidas em nossos corações quando fazemos determinados pedidos. Algumas, em uma escala mais elevada, nos levam exatamente às situações que o apóstolo denuncia em sua carta: mortes, contendas, invejas, lutas e guerras. Tudo isso para satisfazer obscuros desejos, que são devidamente condenados em toda a Escritura.

Quanto a esse tipo de petição, a exemplo daquela em que os discípulos de Jesus pediram para que Deus mandasse fogo para destruir as cidades samaritanas que não os receberam bem em suas viagens missionárias, o próprio Deus, exatamente como fez Jesus, se incumbe de fazer os devidos acertos com o suplicante. Existem, porém, outros pedidos que são formulados através das nossas orações, esses em uma escala mais branda, mas que nem por isso deixam de ser igualmente absurdos.

É muito comum ouvirmos alguém pedir porção dobrada do Espírito de Deus sobre a sua vida. Sobre a vinda do Espírito Santo, a Bíblia é bastante clara na profecia de Joel que em 2.8 diz: E acontecerá, depois, que derramarei o meu Espírito sobre toda a carne; vossos filhos e vossas filhas profetizarão, vossos velhos sonharão, e vossos jovens terão visões. O texto fala em derramamento e não em porções. O texto fala também que seria derramado, como foi no Pentecostes, sobre toda a carne, e não somente sobre alguns poucos que pedirem.

O evangelho de Jesus tenta nos comunicar esta mesma mensagem de uma outra forma, quando nos relata o fantástico episódio da unção de Jesus por uma mulher desconhecida, na casa de Simão, em Betânia: Mc 14.3 - Estando ele em Betânia, reclinado à mesa, em casa de Simão, o leproso, veio uma mulher trazendo um vaso de alabastro com preciosíssimo perfume de nardo puro; e, quebrando o alabastro, derramou o bálsamo sobre a cabeça de Jesus. Reparem que o texto não somente fala que um perfume caro do qual algumas bastariam, fala que ele é derramado até a última gota, como fala também que o frasco é quebrado, impossibilitado assim qualquer tentativa de recuperá-lo e guardá-lo.

Assim é o Espírito de Deus, quando bastaria apenas uma pequena porção, ele foi totalmente derramado. Então, qual seria o propósito embutido nas orações que contém esse tipo de pedido? Mais unção para que? Por cobiça, por inveja ou por algo ainda pior?

Sei bem que estas orações carregam consigo um tom piedoso e que demonstram também uma boa dose de pretensa humildade. Mas podemos observar que elas são no mínimo suspeitas, pois não buscam somente uma bênção, mas visam alcançar uma bênção diferenciada, uma bênção lotada de privilégios, de dons exclusivos, o que é inconcebível em toda e qualquer oração que leva junto o nome de Jesus.

Não recebeis porque pedis mal. Um mal que age em duas direções: A primeira, porque é um pedido que ofendendo a justiça e o amor incondicional de Deus, que faz brilhar o sol e cair a chuva sobre todos, indistintamente. E a segunda, que nos faz cair na tentação de pensar que somos mais merecedores do que outros. Que podemos, através de um evangelho que prega a unidade, obter os privilégios que estão dissimulados e ocultos nos porões dos nossos corações invejosos e egoístas, que nos levam invariavelmente às divisões que hoje conhecemos tão de perto.

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