O que é melhor: consolo ou desafio?

Cristo cura o paralítico, Jacopo Bassano  em 1571
Eu sou pobre e necessitado; ó Deus, apressa-te em valer-me, pois tu és o meu amparo e o meu libertador. SENHOR, não te detenhas! Leia Salmos 70

Texto do Rev. Jonas Rezende extraído do livro Salmos para o Coração.

Francisco Penha Alves, meu professor de ética no curso de Teologia, ao comentar o trabalho pastoral de um brilhante colega, não deixou também de formular uma crítica positiva: as mensagens dele são muito bem feitas, revelam o gênio, disse o professor. Faço apenas um reparo à sua atuação como um todo: ele desafia, mas não consola. E há tanta gente que precisa ser confortada.

O velho pastor ilustrou sua observação com um apelo de Jesus: venham a mim todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei, tomem sobre vocês o meu fardo e aprendam de mim, que sou manso e humilde de coração, e acharão conforto para a vida, pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

Leia com atenção esse curto salmo. Davi suplica a Deus socorro e auxílio. O salmista se sente satirizado pelos que se comprazem no seu mal, e ainda dizem: Bem feito! Bem feito! Apesar de ser a maior autoridade do seu povo, o rei Davi está sofrido, esmagado e atingido pela maldade. E registra no salmo que escreve: eu sou pobre e necessitado... tu és meu amparo e meu libertador.

Deus é amparo e consolo de todos os que nele confiam. Em outros salmos, o poeta volta a esse tema: responde-me quando eu clamo, ó Deus da minha justiça; na angústia tu me alivias.

Ser consolo e amparo, neste caso, não significa que o Senhor corresponde à nossa febre burguesa de consumo: casa própria; automóvel; uma confortável conta no banco. Ele também não legitima a religião como muleta e não endossa essa mentalidade conservadora, que vê o mundo como um campo inimigo minado, só visitado no dia-a-dia, porque temos de assegurar a nossa subsistência. Deus nos consola porque está conosco e nos aceita como somos e como estamos. O seu amor traz um sentido superior e eterno para todos os gestos da nossa vida.

Mas ele é também um desafio, porque nos liberta, como descreve Davi neste salmo. E espera que administremos, com responsabilidade ética, a nossa liberdade. Jean-Paul Sartre afirma que somos condenados à liberdade, porque há um desafio implícito no fato de sermos livres. Esta é a razão porque os animais domésticos quando perdem, em grande parte, a sua liberdade de origem, deixam de ser o que são na Natureza. E porque os passarinhos que nascem em cativeiro não voam para longe, ainda que a porta da gaiola esteja aberta. Se o ser humano for domesticado, embota-se a sua liberdade e todos os desejos; não é mais atingido pelos desafios, e seus sonhos morrem melancolicamente...

Veja bem. Uma fé que se restringe apenas ao desafio sem consolo termina em ativismo, torna-se subalterna diante das diferentes ideologias; por fim, institucionaliza-se e morre.

Por outro lado, uma fé que se resuma em consolo sem desafio estimula o comodismo alienado diante de um mundo diante de tantas demandas e carências. Por isso mesmo, palco de nossa ação.

Consolo e desafio são dimensões ou vertentes da fé que age por amor. Na parábola do bom samaritano, contada por Jesus, os dois tipos estão entrelaçados de modo indivisível. O homem assaltado era um desafio que ninguém queria aceitar. O samaritano para a sua viagem e salva da morte aquele em quem reconhece o seu próximo.

E o Cristo diz aos seus ouvintes:

Vá e faça da mesma maneira.

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