O medo do medo II

Mar da Galileia, Delacroix
O medo da morte é um medo aterrador de algo de algo inevitável, pois mais cedo ou mais tarde todos vamos experimentá-la. É um medo de uma experiência pela qual ninguém, a não ser Jesus, viveu e voltou para contar. Portanto, é um medo injustificável. Alguém diria que é o medo do nada.

O que faria se alguém garantisse que você morreria hoje, antes desse dia se findar, antes de ter realizado tudo o que pretendia, antes de ter criado seus filhos, antes de ter completado seus planos mais imediatos?  Como você aceitaria a sua morte hoje? Tem como você receber a morte como uma amiga, sem angústia e sem desespero?

Permita-me fazer-lhes mais algumas perguntas pessoais:
Algumas dessas coisas mencionadas nesta meditação lhes fazem ter medo?
Além dessas existem outras coisas que lhe apavoram?

Pense um pouco e me ajude a responder uma outra indagação intrigante:
Como pode ser que conhecendo todo o poder de Deus em Jesus Cristo, como pode ser que reconhecendo que ele está conosco aqui e agora, como pode ser que sabendo que a vitória final sobre todas as coisas está nas suas mãos, como pode ser que sabendo de tudo isso ainda sintamos medo?

É espantoso mesmo, mas pelo menos assim eu posso perceber um pouco do que os discípulos experimentaram naquela noite, naquele barco pequeno, naquele mar furioso. Então vamos voltar ao nosso texto bíblico, porque agora já temos uma visão melhor da situação. Evangelho de Marcos 4.35-41.

Os discípulos tentavam fazer uma travessia costumeira no Mar da Galileia, como se dizia antigamente, ou no Lago de Genezaré como se diz hoje, e de repente são surpreendidos por uma tempestade. Jesus, alheio a tudo, simplesmente dormia, o que causou um espanto imediato. Como podia alguém, em meio à aflição e ao desespero de muitos dormir tranquilamente? Inconformados com tal atitude foram acordá-lo perguntando: Mestre, nós vamos morrer e o senhor não se importa?

Como nós somos parecidos com eles! Temos tentado falar com as pessoas aquilo que temos aprendido e experimentado do amor de Deus, porque é assim que nós cremos nesse poder, igualzinho a eles, e como ainda, também como eles, somos medrosos? Nós temos ensinado e pregado sobre esse amor, mas nós não o temos compreendido. Temos ouvido desde criança, mas não o temos assimilado. Temos julgados os outros, inclusive os discípulos no barco, por causa da sua fé, chamando-os de medrosos e de homens sem fé, para depois reconhecer que nós não somos em nada melhores que todos os outros, e em algumas horas até piores que eles. Certa vez um membro da minha igreja me procurou e me disse: Eu tenho problemas com a minha fé. Eu o olhei para ele e pude perceber que se a fé dele não era maior do que a minha, o que provavelmente acontecia, pelo menos a sua coragem era. Respondi na mesma hora: Eu também tenho problemas com a minha fé. E tenho mesmo!

Neste instante, versículo 39, Jesus se levantou e disse ao mar e às ondas: Fiquem quietos. Então os discípulos entenderam que esta ordem era também para eles: Fiquem quietos. E nós precisamos urgentemente entender que também é uma ordem para nós: Fiquem quietos. O vento parou e tudo ficou calmo. Nem tudo, porque agora é a hora de Jesus instigar os seus discípulos: Por que é que vocês são assim tão medrosos? Por que vocês não tem fé? Realmente a fé é o único antídoto para o medo em todas as suas formas grotescas.

Mas como é que se vence o medo pela fé? A tempestade no mar trouxe à tona a tempestade em cada um dos discípulos. Jesus estava com eles e ainda assim eles estavam com medo. Não devemos apontar a incredulidade deles porque a nossa é igual, mas temos que ver que a experiência da tempestade no mar ajudou muito a igreja nos primeiros séculos. Os primeiros cristãos enfrentaram a tempestade de uma perseguição injusta e covarde. Eles viram que nesta passagem do evangelho havia muito simbolismo. O barco era um dos símbolos da igreja na arte dos cristãos primitivos. O mar representava as investidas aterrorizadoras do mal. Os ventos sugeriam as incertezas dos conflitos da vida e a perplexidade diante das perseguições. A tempestade, a insegurança ante as dificuldades.

Neste relato, Marcos estava querendo dizer algo à sua comunidade de cristãos em Roma que estava sendo perseguida. Cristãos em Roma que estavam tão amedrontados quanto os discípulos no barco. Cristãos em Roma que eram tão medrosos quanto nós somos. Cristãos em Roma que eram incapazes de confiar que Cristo havia guiado os seus discípulos com segurança após uma noite de medo no mar.

Então, o que tudo isso significa para nós hoje? Uma coisa simples: a firme convicção de que absolutamente nada, de que nenhuma pessoa, de que nenhuma força natural ou sobrenatural pode nos separar do amor de Deus em Cristo. Somente tendo essa convicção, podemos viver neste mundo com confiança e sem medo. Podemos de fato aceitar que Jesus está conosco aqui, como esteve com os nossos irmãos do passado naquele barco? Podemos ouvi-lo dizer nas horas mais incertas: Fiquem quietos? Somente assim vamos ver o vento parar e o mar se acalmar, bem na nossa frente. 

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