Deus fez II

Bodas de Caná, Gerard Davi (1460-1523)
A resposta está em Deus, porque O que a lei de Moisés não pôde fazer porque a natureza humana era fraca, Deus fez. Ele nos perdoa quando nós confessamos nossas necessidades em vez ficarmos tentando justificar a nós mesmos. A mentalidade moralista, que conheço por experiência própria, uma vez que fui criado no rigor do puritanismo protestante americano, onde só existe o bem e o mal, o certo e o errado, o preto e o branco, é uma realidade que o brasileiro através do seu jeitinho, com toda a razão rejeita. Já nos perguntamos como o povo pode entender o que acontece num culto fundamentalista? Isso não seria um grande problema, caso a nossa mentalidade moralista não nos impulsionasse compulsivamente a mudar os outros. Caso o nosso o nosso julgamento dos outros não fosse sempre destrutivo e ameaçador. Caso a nossa melhor defesa não fosse a condenação de tudo o que não nos é familiar.

Todo mundo tem medo de ser julgado. Isso é um paradoxo. Quando nós queremos fazer o certo, nós nos tornamos juízes do bem e do mal. Óbvio que é assim. Se não fizermos esse julgamento, como escolheríamos entre o bem e o mal? Quando queremos condenar o mal ou louvar o bem, nos tornamos peritos julgadores. Quando temos a necessidade de desmascarar os maus e honrar os justos, tornamo-nos moralistas. Não existe outro jeito, é um paradoxo mesmo. Por conta disso, nós os protestantes tradicionais somos os bons moralistas, a reserva moral da nação, ou danação, não sei bem. Sabemos bem o quanto é bom se achar bom e o quanto faz bem imaginar que está fazendo o bem. O nosso viver no orgulho protestante é constantemente julgar o errado. É impossível para qualquer um de nós não fazer isso. O que não percebemos é que é essa atitude de julgamento que nos faz tão medrosos. É justamente essa atitude de julgamento que nos divide, na nossa vida secular, na nossa própria casa, e na nossa igreja.

Quantos casamentos são destruídos por causa do medo de ser julgado? Obsevem a noiva antes do casamento, o quanto está radiante. Mas por quê? Por causa do milagre do amor romântico? Pode ser, mas há também um milagre está acontecendo. Ela encontrou o homem que não a desaprova. A noiva tem a coragem de contar ao seu amado tudo que vem à sua mente. Ela se abre e conta os seus segredos mais íntimos, coisas que jamais contou a alguém. O seu amado, por sua vez, responde com sinceridade que ela é magnífica, inteligente e encantadora, e da mesma forma lhe expõe toda a sua vida, ou pelo menos quase toda. Isso acontece quando nos sentimos cercados de amor e confiança. Acontece quando não nos sentimos julgados pelos outros.

O problema é quando a Lua de Mel acaba. Quando a esposa nota que o seu marido é bastante egoísta, e ele é. Quando o marido se dá conta de que a esposa se mete em tudo o que ele faz e que fala demais sobre o que não conhece, e ela fala mesmo. Agora um começa a ver o outro como ele é e é aí que começam os julgamentos. Não há mais confissões, não há mais confiança. Cada um se fecha em si com medo do julgamento do outro. Ninguém revela mais as suas fraquezas com medo que isso se volte contra si. Cada um se esmera em reunir provas, se especializa em julgar e se acha pronto a condenar. É aí que o amor acaba.

Da mesma forma nos imaginamos diante de Deus. Imaginamos que ele está sempre pronto a nos julgar e a nos condenar. Para nós ele nunca deixou de ser aquele olho sem pálpebra que está sempre aberto e vigilante. Para nós ele nunca deixou de ser aquele Senhor severo e inflexível. Para nós ele nunca foi verdadeiramente Pai.

Pode ser que alguém interprete de outro modo, mas quando leio o que Jesus disse sobre o julgamento, não consigo entender que julgamos os outros com critérios mais rígidos do que os que usamos para nós. Entendo que os critérios que usamos para nos mesmos, os nossos critérios que entendemos ser os critérios de Deus é que são os mais inflexíveis. Por eles julgamos os outros. Mas quando o coração se abre totalmente para Deus, a sua graça incondicional, arbitrária, universal, eficiente e radical cancela e anula tanto os julgamentos que fazemos de nós quanto o que fazemos dos outros. O amor e a confiança voltam a reinar absolutas. Isso não vem de nós, não vem do que somos, do que fazemos ou do que deixamos de fazer. Vem da graça, vem de graça. O que a lei de Moisés não pôde fazer porque a natureza humana era fraca, Deus fez.

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