A salvação continua vindo dos judeus?

Vós adorais o que não conheceis; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade. João 4.22s
Jacó luta com Deus, Paul Gouguin em 1888
A concepção de salvação no Judaísmo leva em conta a Teologia do Duplo Pacto, ou seja, é a salvação que vem pela graça mediante a fé em Deus Pai, mas que se manifesta na obediência a Lei. Essa visão não exclui totalmente de Jesus o seu caráter salvador, mas o limita a ser salvador apenas dos gentios, uma vez que os judeus já tem o seu salvador desde que Deus se revelou a Moisés, e posteriormente para todo o povo por inteiro no Primeiro Testamento ou Aliança. O Segundo Testamento ou Nova Aliança é a revelação do salvador dos gentios, da qual o judeu prescinde.


Seria o caso de pensarmos que a salvação dos judeus vem de fato dos judeus, e a nossa, os gentios, viria de Jesus, o Cristo? Considero que esta seja uma maneira tentadora de pensar, pois nos evitaria grandes conflitos de ideias, sobretudo com os trechos complicados e enfáticos da Antiga Aliança. Mas não é isso que a Bíblia nos diz. Tanto os momentos de aflição do povo de Deus no passado, quanto o pesado pecado que recai sobre a consciência dos homens de hoje clamam por um mediador único que vem para restaurar a justiça e apregoar o Ano Aceitável do Senhor, proclamar que o Dia de Iahweh era chegado e implantar o Reino de Deus na terra, vários nomes para a mesma comissão. Portanto, neste sentido não cabe a ideia de um salvador especializado, mas sim de um salvador universal. Mas sabemos bem que isso não responde a pergunta que foi gerada pelo diálogo de Jesus com a samaritana.

Sem a pretensão de por um fim a milenar questão, gostaria fazer algumas considerações: Primeiramente, a palavra judeu não aparece nos textos originais. Ela é um neologismo da língua inglesa que não existia no tempo de Jesus. O termo mais próximo na língua falada na época fazia referência aos nativos da província da Judeia, ao sul de Canaã, da qual nem Jesus nem a maioria dos seus seguidores eram oriundos. Seria no mínimo estranho achar que Deus teria uma preferência étnica a essa altura da história, uma vez que os profetas já haviam declarado a incapacidade daquele povo. O próprio Jesus já havia dito também que Deus não faz acepção de pessoas, e sim de quem está a favor ou contra a sua justiça.

Convém dizer que a palavra gentio, que da forma que conhecemos também não era usada na época, pois não designava todos os que não eram judeus, mas apenas os infiéis ou os nascidos em nação estrangeira que adoravam a outros deuses.

Havia também um termo parecido para diferenciar os crentes que permaneciam fiéis a Deus daqueles que outrora haviam sido fiéis, mas que apostataram da fé, como era especificamente o caso em que os galileus enquadravam os samaritanos. É bem provável que tenha sido esta a palavra usada, não por Jesus, mas pelo evangelista para discorrer sobre esse famoso diálogo. Temos como base desse pensamento o encontro de Deus com Jacó. Quando Deus mudou seu nome para Israel, não o fez por causa da mudança do seu caráter, mas sim porque o reconheceu como um homem de fé.

Acima da prepotência de quem se julga coautor da salvação, por considerar que o versículo base fala de si ou de seu povo, está a responsabilidade daquele que crê. Jesus disse claramente que a salvação vem por meio dele: Eu sou o caminho. Mas disse também que ela é transmitida por aqueles que mantêm a sua fé viva nele, e é isso que realmente importa sabermos. Somos herdeiros de uma riquíssima herança de fé, quer seja dos judeus da igreja primitiva, quer seja dos gentios que se converteram pela pregação de Paulo. Mais importante que divagar sobre a nacionalidade ou a confessionalidade da salvação é ter a consciência de que é imprescindível para o mundo que ainda não crê, que ela venha pelo testemunho e mensagem daquele que crê, ou Deus fará com que as pedras façam isso em nosso lugar.

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