Tempo bom

Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos. Atos 2.46s
Kumbaya, my Lord
Para aqueles que imaginam que a Bíblia foi escrita per hoc tempus et lócus, ou seja, na hora e local do fato, Lucas passa uma ideia objetivamente oposta. Principalmente quando o assunto versa sobre as virtudes da igreja primitiva, existe todo um consenso que enaltece grandemente aqueles nossos pais da fé. Pelo que Lucas dá a transparecer quando escreveu o seu evangelho e logo em seguida o livro dos Atos dos Apóstolos, por volta do ano 80 de nossa era, já existia entre os primeiros cristãos um sentimento de melancolia por um tempo e por uma situação que para ele não existia mais. Seus dois livros seriam completamente diferentes do que este que temos hoje, se a igreja ainda estivesse vivendo aquele capítulo que é a grande inspiração para o Cristianismo em todos os tempos. Mas não foi assim.


O capítulo 2 de Atos durou muito pouco, mas deixou muita saudade. Logo vieram a escolha não autorizada e mal avaliada de um novo apóstolo, o sectarismo sobre as viúvas dos judeus de origem grega e a discussão sobre a exclusividade da salvação, isso se nos retivermos apenas ao testemunho de Lucas.


A despeito de tudo, temos que considerar um dado importante: um dia a igreja já foi tão boa que funcionava, e funcionava com preceitos simples, porém, cuja execução era bastante complexa. Eu tento imaginar o quanto foi difícil para aquelas pessoas serem fiéis a Deus, obedientes ao evangelho, e ao mesmo tempo contarem com a simpatia de todo o povo. Em nenhum outro lugar da história se viu harmonia semelhante. Os mais antigos podem até dizer que o termo evangélico já foi muito mais respeitado, e que ser crente, em um passado próximo, era garantia de integridade de caráter, moral elevado, lisura e honestidade. Mas estes mesmos crentes nunca poderão dizer que foram integralmente fiéis a Deus, porque a sua história foi marcada por guerras absurdas, pelo silêncio diante dos governos ditatoriais e pela associação com o colonialismo e com a opressão financeira.

Existe hoje em dia uma forte tendência em se considerar que as coisas que são genuinamente de Deus são naturalmente agradáveis e conciliáveis a todas as formas de governo. É bom que se observe a tensão que havia entre os primeiros cristãos, o sacerdócio judaico e o Império Romano. É bom que se leia que eles contavam com a simpatia do povo, mas não dos governantes.

Hoje o mundo está mudado e com ele a igreja. Quem se reunia ocultamente nas fétidas catacumbas, agora enche estádios. Quem era perseguido pela sua fé, agora sobe nos palanques dos césares. Quem aprendeu a dar a Cesar exclusivamente o que era de Cesar, hoje se regala na mesa dos imperadores.

A igreja primitiva não tinha os recursos que temos hoje para a ação social, e nem para erguer suntuosos e confortáveis templos. Há bem pouco tempo não tínhamos força política para eleger sequer um vereador. Quem sonharia ter um senador cristão? Curioso que não tínhamos nada disso: não dávamos cestas básicas, não possuíamos creches, não fazíamos reforço escolar, não praticávamos a inclusão social, não tínhamos asilos em orfanatos, e apesar de tudo ainda contávamos com a simpatia do povo. Vocês acreditam que não tínhamos dinheiro para comprar horários nas televisões, adquirir estações de rádio, transformar cinemas em igrejas e nem para alugar um estádio, por menor que fosse? Parece mentira, mas era assim.

A fidelidade a Deus nunca irá ao encontro dos interesses. Ela esteve, está e sempre estará na contramão dessa história. O testemunho do evangelho sempre será uma pedra no sapato de todo aquele que quiser conciliar pacificamente estes dois mundos. Ninguém pode servir a dois senhores. Ou a igreja confronta a situação que se opõe declaradamente ao evangelho, ou, em vez de simpatia, vai ser alvo das piadas cada vez mais degradantes de um povo que sabe bem identificar quem é realmente cristão, a despeito de se dizer evangélico. É importante que seja agora, porque, segundo a sabedoria popular, quem espera tempo bom é sertanejo.

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