O poder do Reino X o reino do poder

Agora, vos digo: dai de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; mas, se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus. Atos 5.38s
Pedro diante do Sinédrio, William Hole (1846-1917)
Alguns dos atributos que conferimos às obras de Deus não encontram respaldo na Bíblia, a não ser nas palavras de pessoas que não foram divinamente inspiradas. É justamente aí onde os argumentos que identificam tais textos como bíblicos falham, porque assim fazendo estamos equiparando a palavra de grandes imbecis, como é o caso de Gamaliel, à dos grandes servos de Deus que de fato passaram por experiências arrebatadoras, para mais tarde, após de muita reflexão, fazerem o registro fiel destas experiências. Um texto não é bíblico pelo simples fato de estar contido na Bíblia, mas sim por estar em consonância com a sua mensagem central e com o espírito com o qual toda a Bíblia foi escrita.

A famosa e propagada intervenção de Gamaliel é sem dúvida um dos maiores absurdos que pode ser usado como verdadeiro para fundamentar sermões e reflexões em um púlpito cristão. A Bíblia jamais afirmou que as obras que fazemos na terra, mesmo que as que confirmadamente levam o aval e a bênção de Deus, são definitivas e perenes. Não é a sua idade cronológica, muito menos a sua resistência ao tempo, que podem fazer com que uma obra seja reconhecidamente uma intervenção divina na história da humanidade. Justamente por isso que em suas páginas encontramos inúmeros exemplos que negam, aí sim, definitivamente o consagrado argumento de Gamaliel. Temos como exemplo o templo de Siló, que foi a primeira cidade separada para a adoração a Deus e hoje não é mais que uma lembrança amarga do povo judeu. Temos também os dois templos de Jerusalém, sendo que o segundo já foi reconhecido como a maior obra da engenharia humana, considerado pela maioria dos profetas, assim como por Jesus, Casa de Deus, e que dele hoje não restou pedra sobre pedra. Deste mesmo modo podemos citar as igrejas fundadas pelos apóstolos na Palestina, na Ásia Oriental e na Europa. Delas não temos a não ser boas lembranças, enquanto manifestações pagãs se eternizaram entre nós.

Jesus veio para nos ensinar que o Reino, apesar de todo o grande poder que o envolve e pelo qual foi estabelecido é algo que precisa ser cuidado e fortalecido dia após dia. O Reino de Deus pode ser encontrado no tesouro que precisa ser escondido para que os ladrões não roubem. Na ínfima porção de fermento que é escamoteada numa quantidade enorme de trigo. E é o menor grão dentre as hortaliças. O Reino de Deus cresce e toma vulto dentro do coração que humildemente o recebe, e não nas portentosas coisas que nos são visíveis. Ele pode, como sempre faz, manifestar-se através das boas obras que fazemos, e até mesmo de certos monumentos que erigimos, mas estes jamais poderão lhe impor quaisquer limites e nunca lhe serão servirão como aval incondicional de Deus.

Uma das mais desconcertantes verdades sobre o Reino foi dita em momentos de grande tensão entre o Reino de Deus e o reino dos homens. Jesus, para provocar a maior autoridade terrena da sua época, disse ao seu representante Pilatos: O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim. Foi mais explícito ainda com Pedro quando este tentou estabelecer o poder do Reino pela espada, perguntando: Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos?

A perenidade garantida por Deus nunca estará nas coisas visíveis, nem nas obras que executamos, muito menos em certas expectativas criadas sob argumentos da lógica humana. A perenidade que Deus nos assegura, e é bom que seja assim, está e sempre estará sempre aliada à sua salvação e à sua justiça. Muito bem entendeu isso o profeta Isaías quando confrontou a soberba dos governos e a prepotência humana em seu poder efêmero, dizendo: Levantai os olhos para os céus e olhai para a terra embaixo, porque os céus desaparecerão como a fumaça, e a terra envelhecerá como um vestido, e os seus moradores morrerão como mosquitos, mas a minha salvação durará para sempre, e a minha justiça não será anulada. Is 56.6

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