Lázaro vivo ou morto?

Ressurreição de Lázaro, Vincent Van Gogh em 1890
Leiam João 11
Muito ainda se especula sobre a ressurreição de Lázaro alegando-se ter sido uma cena armada para que Jesus fizesse a sua entrada em Jerusalém ainda mais triunfal.
Isso quando não afirmam que Lázaro foi acometido por um ataque cataléptico e tudo não passou de um engano. Nunca foi meu propósito ou pretensão defender a Bíblia e as suas verdades, simplesmente pelo fato de que muito cedo pude perceber que não fui nomeado para ser seu guardião, por outro lado, não vejo nela qualquer fragilidade que necessite da minha interferência para sustentá-la. Para mim as verdades bíblicas se sustentam por si. Penso que interferência humana deve se limitar ao preceito lançado por João do Apocalipse: a ela não se deve acrescentar nada, e dela não suprimir coisa alguma. Contudo, algumas ordens dadas por Jesus nesse episódio, transcendem a barreira da suspeita que pode ser lançada sobre a ressurreição de Lázaro porque elas falam diretamente a qualquer um de nós hoje, inclusive aos mais céticos.

Retirem a pedra
Fosse qual fosse o buraco que Lázaro estivesse metido, morto ou não, as circunstâncias do lado de fora não iriam mudar em virtude desse fato. Por mais que alguém tente fugir dos problemas, ocultando-se, inclusive na morte, as vicissitudes a vida, de uma forma ou de outra, irão alcançá-lo. Está passando nos cinemas um desenho animado cujo título é Pequena Loja de Suicídios. Conta a história de um país onde o suicídio em local público é crime passível de multa, e essa loja oferece alternativas para os interessados em morrer sem este prejuízo. A despeito do filme, ocultar-se na morte nunca é solução, e é por esse motivo que Jesus ordena que a pedra seja removida e que o esconderijo de Lázaro seja revelado, mesmo que isso não cheirasse muito bem. Dentre as muitas contradições que Jesus anunciou o que seu ministério o levaria, uma delas é justamente essa: na fé cristã não há nada oculto que não venha a ser revelado, como ela também não se presta para ocultar alguém ou qualquer coisa, porque todas as pedras que serviam a este fim foram retiradas no mesmo instante que o véu escondia o sagrado dos sagrados se rompeu.

Venha para fora
Essa é ordem mais difícil de ser cumprida, porque quando Jesus chama Lázaro para fora, mas não o chama imediatamente para o esplendor do Reino que veio anunciar, mas o chama para o mesmo velho e perigoso mundo que ele havia deixado para trás. Lázaro venha para a vida, para os problemas, para as doenças, para as injustiças e até para uma segunda morte. Venha para um mundo que não está nem aí se você está vivo ou morto, que não vai lamentar a sua partida e nem festejar a sua volta.

Voltando ao desenho animado, os problemas dos proprietários da loja começam justamente quando lhes nasce um filho que só consegue enxergar a vida, seja qual for a circunstância, mesmo nas mais trágicas. Fico tentando imaginar o quanto não aumentaram os problemas de Lázaro com a sua ressurreição precoce. A partir então passaria a ser visto como um zumbi ou como alguém que já não deveria estar entre os vivos. O venha para fora de Jesus acarreta em implicações ainda maiores do que as que nos fazem fugir e nos ocultar. Por esta razão, vir para fora, não é um ato de coragem para os fortes e nem para os que correm melhor, como diz o hino, mas para os fiéis e sinceros que se propõem a seguir o caminho inconsequente da autodoação voluntária, assim como fez Jesus.

Desatai-o e deixai-o ir.
Desatai-o das amarras do medo e dos grilhões da escravidão do preconceito. Deixai-o ir como um homem livre que já passou pelo pior pesadelo, pelo inimaginável, que foi além do limiar crítico. Desatai-o do fundamentalismo, da ideia preconcebida e das tradições que se sustentam pelo orgulho e não pela necessidade. Deixai-o ir de encontro àqueles que não acreditam ser possível alguém sobreviver nessas condições. Desatai-o dos dogmas seculares que creditam à morte um propósito em si mesmo, e que não a veem como a possibilidade de um novo recomeço. Deixai-o ir para novas experiências que o farão antecipar as maravilhas que o esperam no Reino dos Céus.

Seja qual for o tipo de crença, ela sempre encontra lugar nesse nosso mundo. Acreditar ou não na ressurreição de Lázaro não trará tantas implicações para a nossa vida. Complicado é não entender que o propósito da sua narrativa não foi o de contar mais um milagre de Jesus no passado, e sim para que enxergássemos que nos efeitos mais trágicos da morte, estão os sinais evidentes que podemos estar vivendo em sepulcros, escondidos atrás das pedras e privados de viver uma vida de expectativas e esperanças, ainda que sob o risco da morte. Bem entendeu isso o poeta quando disse:
Aprendam caros senhores
Eterna é esta lição.
Existe vida na morte
E apenas na morte
Existe ressurreição


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