Gritei e agradeci

Todos vós que a Deus temeis, vinde escutar: vou contar-vos todo bem que ele me fez! Quando a ele o meu grito se elevou, já havia gratidão em minha boca! Sl 66.16s
O poder da oração, Alex Levin (1975-)
Embora hoje em dia se tente de todas as formas, as possíveis e as inimagináveis, provar o contrário, toda a história do Cristianismo nos conta que ele nunca privilegiou uma fé que se baseia única e tão somente em resultados. Confesso a vocês que passo por certas situações em que fico tentado a pensar dessa forma, mas logo me vem à mente inúmeras razões para não fazê-lo. A principal delas é não conseguir imaginar que tipo de desculpa Deus teria que dar aos heróis da fé citados na Carta aos Hebreus, como também para todos aqueles que sofreram e até morreram por acreditarem em simples promessas, sem nunca terem vislumbrado o menor sinal da realidade que lhes foi prometida, assegurando assim, que os seus descendentes pudessem, no futuro, ter a oportunidade concreta de experimentá-la.

No seu sermão A Salvação pela Fé, John Wesley diz que a fé de resultados é a fé circunstancial, a fé que dura mais do que uns breves momentos. Com a visão de um homem do século XVII, ele dizia também ser esta fé a fé dos pagãos, pois assim considerava aqueles que acreditam na lógica da retribuição, pois criam que Deus apenas abençoa aqueles que o buscam. Um tipo de fé que está longe do ideal cristão, pois ainda consegue ser menor do que a fé dos demônios: que creem firmemente que Deus existe, que sabem do que Deus é capaz, tremem diante desta realidade e mesmo assim não se convertem.

No entanto, o salmo citado faz alusão a uma fé de resultados mais que imediatos, pois é assegurado que a resposta do salmista veio ainda antes que acabasse de fazer o seu pedido. Mais autoridade e peso adquirem as suas palavras, quando ele convoca Deus por testemunha, pois o seu salmo se fundamenta em fatos, e não somente em expectativas ou promessas: vou contar-vos todo bem que ele me fez!

Seria o salmo 66 o preferido de todos os que confessam a fé de resultados. Ele contempla não somente a eficácia como também a prontidão da resposta de Deus. Seria, caso as entrelinhas não nos levassem a concluir que a única coisa que realmente aconteceu de imediato foi a gratidão do salmista pela sua confiança em Deus, e não pela resposta ao seu grito de socorro. À medida que analisamos o conteúdo do salmo vamos descobrindo que a situação era de provação extrema, e que o ímpeto imediato do salmista mandava que ele desistisse e se entregasse às evidências: Ó Deus, tu nos puseste à prova. Como a prata é provada pelo fogo, assim nos provaste. Tu nos deixaste cair numa armadilha e colocaste cargas pesadas nas nossas costas. Deixaste que os nossos inimigos nos pisassem. Passamos pelo fogo e pela água,...

É justamente aqui que a fé em Deus tem que fazer toda a diferença. É principalmente na hora do sufoco que ela precisa se revelar ao mundo. É nessa hora que vamos ter que cantar com fé “as tuas mãos dirigem o meu destino e o acaso para mim não haverá”. Porque não é por mero acaso que caímos em armadilhas, que cargas pesadas são colocadas nas nossas costas, que os nossos inimigos tripudiam sobre as nossas fraquezas.

Muitas vezes não entendemos isso. Na grande maioria das vezes ficamos sem saber o por quê disso. Ainda bem que nossa fé não se baseia em resultados, se assim fosse nós já teríamos deixado de ser igreja há muito tempo, porque motivos não nos faltaram para isso. A única certeza que poderemos ter nesta hora não será a certeza da resposta positiva e imediata, mas a certeza com que o salmista encerra o seu salmo: ...ele não deixou de ouvir a minha oração e nunca me negou o seu amor.

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