A luta dos deuses

Porque, naquela noite, passarei pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até aos animais; executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o SENHOR. Êxodo 12.12
A queda dos gigantes, Giulio Pippi (1492-1546)
Em um mundo oprimido, a evangelização deve chocar-se fundamentalmente com a idolatria e não com o ateísmo. (Paulo Richard)

Por mais que se dê sentido aos eventos celebrados na Páscoa, até o maior deles que é a ressurreição de Cristo, nunca se pode perder a dimensão de que ela é a celebração pela vitória de Deus em uma luta que os homens julgavam irremediavelmente perdida. Quando digo isso não me refiro apenas à Páscoa celebrada pelo mundo cristão, mas também a Páscoa que marcou a nossa saída como povo de Deus da opressão egípcia. Dito deste modo pode parecer que foi um embate simples, cuja previsibilidade da vitória do Deus de Israel, e nosso Deus também, sobre os inimigos era líquida e certa. Pode parecer que foi uma batalha desigual entre Deus e os egípcios, entre Deus e os romanos, entre Deus e Faraó ou entre Deus e Cesar, mas esta não foi uma questão tão simples assim. Não foi uma luta entre Deus e os homens e sim uma luta entre o Deus libertador e os deuses da opressão.

Essa proposta fica bem clara nas dez pragas enviadas ao Egito como sinal de Deus para que Faraó deixasse seu povo ir. Elas assinalam a luta e a vitória contra Hapi, que era o deus personificado pelas águas do Nilo, contra Amonet, o deus sapo, contra Apis e Serapis, os deuses representados por touros, contra Aton, o deus sol e contra a maior representação de deus na terra, Faraó e o seu primogênito. Logicamente que estes não eram deuses na realidade, mas justamente pelo fato de não existirem é que tinham maior poder. Não um poder divino, místico ou mesmo supersticioso, mas a exponenciação do poder do mal que pode ser traduzido nas ações humanas, o que torna a ação de Deus contra essas forças uma complexidade sem medida. Não pode haver nada pior nem mais perigoso do que a maldade humana travestida de vontade divina, por isso a essa luta não se tratava simplesmente de tirar um poder e instaurar outro ou de trocar o poder amigo dos nossos inimigos, por um poder amigo dos nossos amigos, tratava-se sim de desmascarar de vez o poder, revelando a todos a sua mais oculta face maligna e opressora.

Não se deixem enganar, pois quanto maior o seu poder bélico, o seu conhecimento científico, a sua tecnologia ou a sua riqueza, tanto maior é a capacidade de uma nação para a fabricação de deuses, cultos, templos, símbolos religiosos e doutrinas. O que soa como disparidade, pois a tendência de um maior conhecimento é justamente levar o indivíduo a libertar-se dos amuletos, mandingas e superstições naturais das religiões primitivas, mas pelo contrário, leva ao aperfeiçoamento e readaptação delas ao mundo moderno.

A proposta da Páscoa é completamente outra. Não é a simples troca de uma escravidão por outra; de uma servidão por outra, de um deus por outro. Ela é libertação total e irrestrita do ser humano de todas as coisas que o escravizam. Ela é, inclusive, a liberdade para alguém deixar de ser escravo por opressão, para, até mesmo, se tornar voluntariamente escravo por opção. O mal foi definitivamente derrotado na cruz, não por um santo guerreiro, não por um anjo com uma espada flamejante, não por um poder avassalador de uma divindade, mas pelo poder do amor de um cordeiro que calado e humilde pagou o preço que era exigido pela nossa liberdade.

Celebrar a Páscoa é muito mais do que festejar a volta à vida de alguém que estava morto, é celebrar um, até então, inusitado estilo de vida em que os deuses da opressão, sejam do Egito ou de Roma, embora ativos e presentes, estão com os dias contados, pois o juízo sobre eles foi decretado e mais dia menos dia será executado.

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