O semeador e o ceifeiro

Não dizeis vós que ainda há quatro meses até à ceifa? Eu, porém, vos digo: erguei os olhos e vede os campos, pois já branquejam para a ceifa. Leia João 4.35-38
O semeador segundo Mileto, Van Gogh, 1888
A preocupação excessiva e injustificada com a segunda vinda de Cristo tem, ao longo da história da igreja, interferido negativamente no plano de salvação. Não é somente pelo esforço e pelo tempo que se perde analisando sinais da natureza e fatos históricos com o intuito de tentar conhecer aquilo que o próprio Jesus declarou desconhecer. A nossa volúpia em querer antecipar o conhecimento e a glória, a qual Jesus só alcançou após a sua ressurreição, nos faz mudar o foco da mensagem da Bíblia, Jesus já veio, para pregar insistentemente, Jesus virá. Pouquíssimos pregadores do passado não sucumbiram a esta tentação, dentre eles, o único que eu tenho conhecimento que não fez qualquer registro sobre a segunda vinda de Cristo foi o fundador do movimento que originou a Igreja Metodista, o pastor anglicano John Wesley.

Em suas mais de quarenta mil pregações não são encontradas referências sobre este tema. Portanto, vamos tentar fazer uma análise superficial de alguns aspectos do ministério da igreja para verificar até onde o que foi dito acima é fato.

Em primeiro lugar, a expectativa desta vinda nos faz pensar que a salvação do mundo depende exclusivamente de nós cristãos, e que se não agirmos agora ele não tem qualquer perspectiva de salvação. Isso lembra bem os ecologistas que não tendo fundamento científico, analisam friamente o clima e os fenômenos naturais para nos alarmar quanto à proximidade do fim. O Deus em quem creio não tão inconsequente a ponto de dar ao homem que reconhecidamente sou, tamanha responsabilidade, tanto para a salvação do mundo como para a integridade do sistema ecológico. Mesmo depois que, a exemplo de Bento XVI, o papa do Aquecimento Global viesse a declinar da sua teoria, ainda encontramos cardeais, bispos e sacerdotes desta seita em profusão. Mesmo que Jesus nos tivesse severamente repreendido quanto a nossa incompetência neste assunto, continuamos a formar apóstolos, missionários, bispos e profetas desta teologia, cujo objetivo único é pregar o caos iminente. Embora seja grave, este é um mal de curto alcance, pois influencia somente uma ou duas gerações e não faz adeptos entre aqueles que possuem indignidade contra o estado de coisas que realmente estão nos levando para o caos.

O segundo aspecto é que é realmente importante. Essa ênfase na Parusia está formando apenas ceifadores. Somos hoje uma igreja que tenta desesperadamente colher onde não plantou. Sob esse ponto de vista eu louvo a iniciativa de algumas igrejas neopentecostais que ousam divulgar o seu tipo de evangelho além das fronteiras que as igrejas tradicionais levantaram para si. Mas não é hora de falarmos sobre isso. É importante que se veja que os seminários estão formando apenas pastores para liderar grandes movimentos religiosos. Lá é o lugar que forma exclusivamente pescadores de homens. Sobre este assunto, recomendo que leiam o sermão Pastores e pescadores que serviu de prova para o meu ingresso no ministério (http://amosboiadeiro.blogspot.com.br/2012/04/pastores-ou-pescadores.html).

O que fica notoriamente mais prejudicado nesta situação é justamente a educação cristã, pois a igreja não está mais investindo em professores de Escola Dominical, em música sacra de qualidade ou em pesquisa da bíblica. Nossa teologia está tão atrasada em relação à americana ou à européia, que pelas suas teses julgamos seus teólogos serem os maiores embaixadores de Satanás neste mundo. Ninguém imagina que estes são assíduos frequentadores de cultos, que são cristãos comprometidos e dizimistas fiéis. Para nós, eles são apenas perturbadores de uma ordem que está prestes a terminar.

Ceifamos onde não semeamos e não semeamos para alguém venha a ceifar. Assim dificilmente a geração após a nossa será desafiada por Jesus a ver o que ele nos determinou que víssemos: um campo que esteja pronto para a ceifa.

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