O que é SALVAÇÃO?

Adoração dos magos,Esteban Murillo(1618-1682)
No hebraico a palavra salvação procede do radical yasa que significa salvar alguém que corria risco de morte. É através desta experiência que se explica a principal ação de Deus na terra: salvar os homens. A ideia de que os deuses salvam os seus adoradores é bastante comum às religiões. O Primeiro Testamento é rico em nomes que traduzem esta experiência, tais como: Josué – Deus é salvação, Josias – Deus sara, Eliseu – Deus é salvação, Oséas – salvo, apenas para falar dos nomes mais comuns que usam este radical. 

Quando Israel estava em perigo Deus o livrava, seja através de um milagre, como o Êxodo, ou através de pessoas preparadas e enviadas para esse fim, como Sansão, ou ainda através da conjunção de acontecimentos históricos, como foi o livramento do cerco de Senaqueribe a Jerusalém, anunciado por Isaías – II Rs 19,34. Na sua providência, Deus também usava a salvação em sequência: Deus salvou Davi e Davi salvou Israel. Apesar de Israel glorificar os seus salvadores como heróis, os profetas foram unânimes em afirmar que somente Deus salva, e é essa mensagem radical que nos faz entender todo o processo de salvação, ainda que apenas um pequeno resto tenha sobrevivido, pois é justamente nesta hora em que eles buscavam o Deus Salvador.

Mas esta salvação na Bíblia é muito mais do que o livramento imediato das mãos de um inimigo, requer consolo pelas perdas, retorno do povo desgarrado e disperso rebanho de Deus, prática da justiça e remoção das impurezas e iniquidades, são alguns aspectos, sem contarmos a salvação da morte como consequência natural da vida. Contudo, nem sempre o livramento da morte física é sinal de salvação, pelo menos assim pensavam os amigos de Daniel quando ameaçados de morrer na fornalha de Nabucodonosor. Eles textualmente disseram que podiam até ser mortos por ele, porque já estavam salvos com Deus.

O Segundo Testamento vem confirmar que de fato Deus quer salvar os homens, e para isso envia o seu Salvador supremo. Muito embora Jesus houvesse praticado a salvação através de curas e ressurreições, mas para vê-lo como o Salvador eterno enviado por Deus era preciso enxergar muito além da saúde física ou mesmo da preservação da vida, pois a salvação eterna exige uma fé que sobreviva a esses infortúnios temporais. Mas Jesus acrescenta um elemento novo à salvação, a remissão de pecados. Ou seja, salvar o homem dele mesmo, de ter que ser punido pelas suas faltas e iniquidades. Não mais um perdão que necessitaria ser renovado anualmente, mas a destruição do escrito de uma dívida que nunca mais poderá ser cobrada.

A salvação não é apenas o cumprimento de uma formalidade legal, ela tem por finalidade levar os as pessoas a mudanças, pois elas não são colocadas em uma redoma para ficarem livres do perigo da perdição. A salvação é que nos faz entrar pela porta estreita, pelo caminho escuro, pelo amor ao próximo e pelo desapego aos bens materiais. É o tesouro escondido no campo, a pérola mais preciosa, o prêmio que a traça não corrói. Ela também apresenta paradoxos, pois quem quiser se salvar vai perdê-la, mas quem quiser perder-se por amor a ela, irá se salvar, diz um deles. O outro, mais paradoxal ainda, questiona o próprio poder de salvação de Jesus, pois ele veio para salvar o mundo, mas não se permitiu salvar a si mesmo.  

Esta inefável salvação foi finalmente confiada à Igreja, não para ser ostentada como símbolo do seu poder, mas como preocupante parâmetro da sua responsabilidade, pois o que ela ligar na terra, será ligado no céu, e o que ela desligar na terra, será desligado no céu. Quando vemos nos evangelhos que Jesus atendeu preferencialmente os mais destituídos da graça de Deus e atentou para a necessidade dos mais miseráveis, como não entender que a mensagem da salvação está tomando a direção contrária a que foi proposta por Jesus? Estamos correndo o sério risco de ouvirmos a terrível sentença: Depois ele dirá aos que estiverem à sua esquerda: “Afastem-se de mim, vocês que estão debaixo da maldição de Deus! Vão para o fogo eterno, preparado para o Diabo e os seus anjos! Pois eu estava com fome, e vocês não me deram comida; estava com sede, e não me deram água. Era estrangeiro, e não me receberam na sua casa; estava sem roupa, e não me vestiram. Estava doente e na cadeia, e vocês não cuidaram de mim.” Em resumo, eu estava em perigo e você não me salvou.

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