O que é PROFETA? II

Choro de Jeremias, Ylia Repin (1844-1930)
A luta que o profeta trava contra seus adversários acontece sempre nos mesmos campos de batalha: a lei, as tradições e o culto.

Uma vez que a lei declara o que deve ser para cada tempo e para cada homem, ela não é uma corrente de pensamento divergente do profetismo. Pelo contrário, o profeta denuncia os pecados praticados contra ela. O que o distingue de um representante da lei é que ele não espera ser designado interventor para se pronunciar. Ele se pronuncia sem ser encarregado, sem ter
autoridade reconhecida e sem referência a casos anteriores, mas em nome de Deus que lhe revela no momento preciso qual é o pecado e quem é o pecador. Normalmente eles se fundamentam no decálogo para denunciarem as fraudes, os salários aviltantes, a venalidade da justiça, a escravidão indevida e a falta de humanidade. Através do carisma que acompanha o seu chamado, o profeta coloca o dedo na ferida mais íntima que o pecado esconde. Por tocarem em delitos tão reclusos, os profetas são facilmente desmentidos ou tem as suas mensagens distorcidas. Segundo Ezequiel, são delinquentes refinados, que apenas turvam a água das ovelhas. Embora também não eximam o povo de culpa, são os sacerdotes e as autoridades detentoras da lei os seus principais alvos. Contra estes nem mesmo a lei possui armas, somente o discernimento entre dois espíritos, o do mal e o de Deus, pode resolver. Esta situação pode levar ao confronto profeta contra profeta, Palavra de Deus contra Palavra de Deus.

Os profetas não forma anacrônicos, eles acompanharam bem de perto as mudanças ocorridas na sociedade.  Eles tinham consciência do novo, quer nas vestimentas, na música ou nas relações sociais. Apesar de possuírem uma forte tradição antimonárquica dos profetas anteriores à monarquia, eles aceitaram bem a presença de um rei, e nunca pregaram um retrocesso às formas de governo passadas, mesmo cientes de que algumas situações haviam sido previstas por Samuel. O profeta não veio para vindicar uma volta ao passado, nunca foi esta a sua função. O que eles trazem do passado é a imagem feliz da fidelidade de outrora, quando o povo reconhecia os feitos de Deus, lhe era grato e obediente. Não iludiam o povo com promessas de dias melhores enquanto não houvesse mudança interior. Amanhã será como hoje, dizia Isaías. Os profetas usam o passado e as tradições para reconduzir o povo ao verdadeiro eixo que os fez ser um povo e ter o Deus de Israel como o único Deus de uma única religião.

Já contra o culto eles são iminentemente radicais. Condenam com veemência os sacrifícios, as festas e próprio templo, que para eles era um covil de salteadores. Não somente o templo de Jerusalém, mas os santuários de Betel e Dan também foram alvos de crítica severa. Eles chamavam os sacrifícios de sacrilégios, assim como era sacrilégio todo o culto e todas as celebrações em nome de Deus. O pecado havia se aviltado de forma, e os sacerdotes se corrompido tanto que nem mesmo para si os sacrifícios poderiam trazer perdão e purificação. Para eles os cultos, festas e sacrifícios só encontravam sentido em uma vida de fidelidade num sistema de governo justo. A iniquidade havia se acumulado tanto que somente o Santo de Deus poderia remi-la. Contra toda a falsidade cúltica eles pregavam a vinda de Messias, que viria para interpretar corretamente a lei e anunciar a verdadeira forma de adoração. Até lá, que Israel se repensasse, que os sacerdotes se arrependessem, que os doutores da lei se penitenciassem e que o povo chorasse e pranteasse as suas faltas.

Nunca foi e nunca será tarefa fácil ser profeta de Deus. Situações drásticas requerem atitudes também drásticas. Foi exatamente neste sentido que Jesus falou que o evangelho colocaria pai contra filho, mãe contra filha, irmão contra irmão e sogra contra nora. Por conta disso os profetas se viram sozinhos, rejeitados e discriminados. Para um povo crente nas superstições pagãs eles não seria possível entender que eles traziam a Palavra de Deus, e sim mau agouro. Não entendiam que as tragédias e infortúnios eram causados pela sua má índole, mas sim pelas palavras dos agoureiros profetas. Realmente quem bate de frente contra todas as situações equivocadas nunca vai merecer o crédito da sociedade. Nós podemos aturar uma ou outra rebeldia. Podemos nos atrelar a um ou outro movimento contestador. Podemos fazer coro a uma ou outra voz que clama no deserto. Mas tomar partido contra tudo que está errado, somente um profeta, e não um profeta qualquer. Somente um que seja escolhido e vocacionado por Deus. (continua)

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