O que é MISTÉRIO?

Casamento entre Cristo e a Igreja
No grego antigo mistério tem a sua origem em miein, fechar a boca, e significava um ato religioso que somente os iniciados, mistoi, podiam participar, e neste sentido obter privilégios, inclusive da salvação, entre as demais pessoas. A partir de Platão passou a significar também doutrina obscura, feitiçaria ou uma gnose revelada por um ser divino. No Primeiro Testamento ela só é usada nos escritos mais recentes, às vezes como rito secreto, outras vezes como segredo: Então, foi revelado o mistério a Daniel numa visão de noite; Daniel bendisse o Deus do céu. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz.Dn 2.19 e 22. Os livros deuterocanônicos a usam com mais frequência e consideram o mistério como a essência da sabedoria. Nos apocalipses judaicos a palavra tomou um sentido escatológico ainda mais futurístico do que o mistério dos sonhos de Nabucodonosor revelados a Daniel.

No Segundo Testamento a palavra encontra relevância em Paulo, que a usa dezoito vezes em suas cartas. Nos sinóticos, quando Jesus explica a finalidade das parábolas, ele diz que é um mistério do Reino revelado ao seu pequeno rebanho. Estes podem compreender plenamente a sua realidade, mas os de fora entendem simplesmente como uma parábola. O Apocalipse de João traduz o mistério num sentido simbólico, que seguindo a tradição dos escritos apocalípticos, esconde nas imagens indecifráveis uma mensagem que, aos olhos dos adversários não passem de alucinações, mas que aos endereçados seja clara e objetiva. As cartas de Paulo permanecem na mesma linha que os deuterocanônicos. Mistério significa um segredo que só pode ser conhecido por revelação. Cristo é o grande mistério de Deus que vem para revelar literalmente a sua sabedoria e a sua vontade, que é desconhecida dos poderosos deste mundo. Sendo revelado por Deus e promulgado pelos pregadores da revelação, pode ser chamado de mistério da fé confiado aos diáconos: Semelhantemente, quanto a diáconos, é necessário que sejam respeitáveis, de uma só palavra, não inclinados a muito vinho, não cobiçosos de sórdida ganância, conservando o mistério da fé com a consciência limpa – ITm 3.9.

Paulo também a usa em alguns sentidos específicos, como em Romanos, o mistério é o plano secreto de Deus para a salvação dos gentios. A transfiguração dos vivos e a ressurreição dos mortos em Coríntios. O mistério da iniquidade que está em ação e se revelará no Anticristo, em II Tessalonicenses e a vitória final de Deus em Efésios.

Muito embora Paulo não demonstre ter uma compreensão mais acurada das duas revelações extraordinária pelas quais passou, a do caminho de Damasco e a que foi narrada em IICo 12, nada do que foi exposto até então pode ser comparado aos mistérios das religiões pagãs de mistério, por razões bastante claras. Os mistérios destas religiões são peripécias de uma determinada divindade com intuito de vingança ou de demonstração de poder sobre outra divindade. Nenhuma destas religiões conhece a verdadeira ressurreição de um Deus morto, que volta à vida mais glorificado que antes. Conhecem deuses que morrem no outono e renascem na primavera, ou que vivem encarnados em outros deuses ou seres. Não tem nada em comum com Cristo, cuja morte e ressurreição fez parte de um plano. Nem mesmo o batismo cristão dá ao iniciado poderes ou conhecimentos que o paganismo apregoa dar em seus ritos de iniciação. O mistério de Deus é revelado na leitura e exposição da Palavra, nos sacramentos e na oração. Esses são os meios que, segundo Wesley, Deus nos comunica a sua graça e os seus mistérios.

A despeito de tudo o grande mistério de Deus está na relação entre Cristo e a Igreja. O mistério de como ele realiza a salvação através dela. Deus escolhe o tempo propício para revelá-lo ao mundo, em um nascimento que, segundo Paulo não teve nada de extraordinário: Vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei. Através de um ministério não mais misterioso, cercado de gente comum, Deus em Cristo começa a revelar o que muitos reis desejariam ver e que muitos profetas desejariam ouvir, mas que foi designado exclusivamente à Igreja. Através do mistério acessível da fé, todo homem é chamado a participar e colaborar com um novo estado de coisas que suplantará em muito qualquer expectativa já concebida até então, o mistério do Reino de Deus, que não está nas estruturas, não está no poder, não está nem na Igreja, mas escondido dentro de cada um de nós.

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