Oração de Jabez

Jabez fez esse pedido ao Deus de Israel: abençoa-me, alarga as minhas fronteiras e ajuda-me. Preserva-me do mal para que eu não sofra. Deus concedeu-lhe o que havia pedido. I Crônicas 410
The Prayer of Jabez, de Bruce Wilkinson, 2001
O nome Jabez é um nome que carrega consigo o trauma, o arrependimento e a nulidade da maternidade, pois significa “dei à luz com dores”. Ele era uma pessoa que logo ao nascer recebeu a negação total da validade da sua concepção e nascimento. Seu nome era o sinal visível de que ele nascera em vão. Tenho pra mim que somente uma mãe extremamente amargurada colocaria sobre um filho um signo tão maldito (na tradição hebraica quem escolhia o nome do filho era a mãe). Mesmo assim, e talvez até por causa disso, contrariando todas as expectativas ele tenha suplantado os irmãos. 

Podemos entender que em seu estado natural, isto é, antes de ter consciência da bênção, Jabez é um homem que temia a sina do seu próprio nome, porque se sentia debaixo de uma iminente maldição que se arrastava desde a sua mais tenra idade. Por conseguinte, como um ultimato a si próprio, coloca diante de Deus uma oração que tem como primeira finalidade expurgar o mal imprecado pela sua mãe, contrapondo-o com uma bênção de Deus que ainda careceria ser confirmada: Se me, abençoardes... Uma vez que a maldição era evidente, os efeitos da bênção contra a maldição, também deveriam sê-lo. Se ele era o menos afortunado dos irmãos, deveria, a partir de então, ser o mais pródigo e o mais ilustre deles.

Para efeito de uma meditação rápida devemos perguntar: Como se configura essa bênção conhecida como “Benção de Jabez? 

1 – Alargarás as minhas fronteiras, significa um aumento substancial na sua propriedade. Com o aumento de terras, viria a reboque maior número de empregados, o que arregimentaria mais homens dispostos a lutar tanto pela preservação do seu patrimônio, como também pela conquista de mais territórios. 

2 – Farás com que o mal se afaste de mim. Aqui entra a doutrina do Morbus Divinus. Uma doutrina que afirma que quando alguém é atingido por um mal sem causa, é Deus quem o está afligindo. Não existia antes do exílio babilônico uma personificação do mal, portanto o bem e o mal vinham da mesma fonte, ou seja, de Deus (I Sm 16, 14)

3 – Que a minha dor tenha fim. Repare que a maldição e a dor são sintomas diferentes. Não adiantaria para ele apenas a maldição ter fim se as sequelas e traumas deixados por ela não fossem juntamente eliminados. Na teologia de Israel não bastava apenas que Deus perdoasse os pecados, eles deveriam ser esquecidos. No sacrifício judaico eram usados dois bodes: o expiatório, que morria para que seu sangue encobrisse os pecados; e o emissário, que era enviado para o deserto para nunca mais ser achado. Não adiantaria de nada se a dívida fosse apenas remida, o seu escrito também deveria ser rasgado para que não existissem provas materiais para uma condenação posterior. 

Como a Bênção de Jabez pode ler entendida hoje?
Jabez se torna o mais importante dos irmãos. Ser o maior significa ter domínio sobre os demais. Perder o domínio auferido pela primogenitura para um irmão mais novo seria como assinar com o próprio punho uma declaração de incapacidade total. Um domínio que poderia ser adquirido de duas formas: pela primogenitura, o que lhe conferiria a maior parte da herança, ou pela conquista pessoal de riquezas e prestígio. Isoladamente ou em conjunto estes são, para a teologia vigente na época, os sinais mais evidentes que a bênção se confirmara. Contudo, nem de longe se pode tomá-la como aceitável à teologia cristã, pois é uma bênção unilateral, que privilegia uma pessoa em detrimento das demais. 

Uma vez que não consta como descendente de nenhum dos patriarcas bíblicos, então por que a menção do nome de Jabez na genealogia das tribos meridionais? Muito provavelmente que Jabez tenha entrado no texto do cronista como uma crítica velada à realeza de Israel. Eu me arriscaria dizer que é um protesto escamoteado entre linhas contra o mau reinado que Saul estava fazendo, profetizando que Deus já estaria preparando a sua bênção para transferi-la para alguém muito menos dotado de atributos reais. Basta que se observe que Saul era o mais alto, o mais forte e o mais belo dos homens de Israel. Em contrapartida, Davi era o mais novo dos irmãos, o que exercia a mais degradante tarefa e havia sido deixado de fora quando, a pedido do profeta, Jessé apresentou seus filhos.

Resumindo, a bênção de Jabez configuraria o que mais tarde Paulo vai chamar de a loucura da cruz Cristo, pois ela escolheu as coisas simples para envergonhar as grandiosas, as coisas fracas para envergonhar as fortes e as coisas vis e a desprezadas e as que não são para envergonhar as que são.

ps. Não estou recomendando o livro porque não o li. Estou apenas utilizando a sua capa como ilustração da postagem.

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