A salvação é para todos?

Hortus Deliciarum de Landsberg (1130-1195)
O texto abaixo, eu o recebi através do Holy Club, um clube de discussões doutrinárias que é mantido por uma universidade dos Estados Unidos e que pertence à herança wesleyana. Através do Club, existe uma troca de ideias, quase diária, entre pessoas de todo o mundo. Recentemente, quando se discutia a doutrina do universalismo, ou seja, de que a salvação é para todos os teólogos Terje Ronneberg escreveu o texto abaixo, que eu traduzi e reparto. 
João Wesley Dornellas - 12/12/2003 

Tem havido diversas menções ao universalismo em recentes discussões. O rótulo “universalismo” significa coisas diferentes para diferentes pessoas. Eu sou um cristão universalista, no sentido de que eu creio na “reconciliação universal” de todas as coisas tanto no céu como na terra (Cl 1:20; Ef 1:10).  Eu creio que finalmente todo mundo encontrará paz na eternidade e ninguém sofrerá tormento sem fim. Eu creio nisto porque em minha visão, a doutrina do “tormento eterno” repousa muito mais na tradição do que na verdade de Deus. Abaixo estão as principais razões pelas quais eu rejeito a doutrina do “tormento eterno”:

A doutrina completa da maldição eterna depende de como a palavra grega “aion” e suas várias formas são interpretadas. Qualquer doutrina atrelada em uma interpretação particular de uma palavra em particular tende a permanecer num terreno muito instável. A palavra “aion” significa coisas diferentes dependendo onde é usada. Ela é normalmente traduzida como “eterna” em passagens como Mateus 25:46, porém, em passagens como Efésios 2:76 e Colossenses 1:26, ela é traduzida como “idade, idades, épocas ou tempos”. Há no grego muitas palavras menos ambíguas que poderiam ser usadas para explicar eterna ou que dura para sempre.

A Bíblia fala da restauração de todas as coisas. A tristeza e o sofrimento existiam antes da queda da humanidade? Não, então é razoável concluir que elas não podem existir depois da restauração final. A Escritura afirma que a misericórdia de Deus dura para sempre. Ele amaldiçoará com o tormento eterno aqueles que falharam em expressar amor e fé em relação a Ele antes de um determinado “prazo final”?

A Bíblia claramente diz que a punição para o pecado é a morte, não tormento eterno. Jesus pagou o preço pelo pecado e a morte tem sido derrotada e será eventualmente completamente abolida. Se Jesus morreu pelos pecados do mundo todo, por quais pecados será o povo eternamente punido? Deus está comprometido com a consequência do pecado na cruz. Deveria ele também estar comprometido com a causa dos pecados do povo através da salvação e santificação ou purificação através das chamas do inferno? O sangue de Jesus torna-se disponível a nós porque nos propomos servi-Lo com consciência clara e limpa? (Hebreus 9:14). A salvação não é ser salvo da punição do inferno, mas salvação da servidão ao pecado (Gálatas 5:1, Romanos 6:6), do medo da morte (Hebreus 2:15). Assim, em resumo, Jesus salvou a humanidade da morte, a consequência do pecado. E está no processo de salvá-la do pecado.

Deus é poderoso? Poderia Ele salvar a humanidade?  Se Ele não pode, seus poderes não são limitados? O braço de Deus é tão curto que não possa atingir as mais profundas profundidades do inferno? Se o tormento eterno é verdadeiro, por que a Bíblia é tão silenciosa sobre ele, o Antigo Testamento nunca o menciona e até Paulo jamais mencionou um lugar chamado inferno. Seria justo que Deus ministrasse uma punição tão severa da qual não falou antes ou prometeu? Ninguém na Bíblia jamais pregou dizendo: “receba Jesus ou queime no inferno para sempre”. Ao contrário, eles pregaram “boas novas”. Lamentavelmente, muitos são culpados por usar as doutrinas do tormento eterno para por o povo em sujeição, para instilar medo e, com ele, controlar o povo. Jesus está procurando uma noiva fiel, que o amará não pelo medo ou força, mas pela fé e livre vontade.

A frase “punição eterna” é usada uma vez só nas Escrituras (Mateus 25:46). No grego, a palavra aqui usada para punição pode ser usada para descrever o ato de podar as árvores para torná-las melhores. Assim, a punição mencionada nesta passagem parece ser um ato de remediar. E a própria expressão “eterno”, traduzida do grego “aionios” pode ser interpretada de diferentes maneiras.

A Bíblia repetidamente usa todas as palavras inclusivas, como “todos” em referência à salvação. Isto parece ser uma forte sugestão para a eventual salvação de todos: 
“Ora, é para esse fim que labutamos e nos esforçamos sobremodo, porquanto temos posto a nossa esperança no Deus vivo, Salvador de todos os homens, especialmente dos fiéis”. (1 Tm 4:10). 
“O qual a si mesmo se deu em resgate de todos: testemunho que se deve prestar em tempos oportunos”. (1 Tm 2:6) 
“Vemos, todavia, aquele que, por um pouco, tendo sido feito menor que os anjos, Jesus, por causa do sofrimento da morte, foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem”. (Hb 2:9)
 “O qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade”. (1 Tm 2:4)                   
 “Porque assim como em Adão todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo”.  (1 Co 15:22)
 “Pois assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça veio a graça sobre todos os homens para a justificação que dá a vida”. (Rm 5:18)
 “Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos”. (Rm 11:32)
 “E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo”. (Jo 12:32)

Como fica a parábola das 100 ovelhas, todas salvas, em relação com as doutrinas daqueles que acreditam que só uma minoria será salva? Uma vez que Deus deseja que ninguém pereça, certamente Ele providenciará e fará tudo o que Ele pode para evitar que alguém pereça. Nosso Deus é o bom pastor, Ele procura a 100ª  ovelha perdida e a traz de volta ao rebanho.

Por que há portões na Nova Jerusalém?  Portões são usados para guardar gente dentro, fora ou ambos. Os portões da cidade celestial não trancarão os santos, mas manterão fora os que não tiverem vivido de acordo com os mandamentos de Deus? (Ap 22:14).

Eu não sou um “ultra universalista”. Eu creio num inferno “aionio”, no qual eu vejo um lugar temporário onde o perverso fique até o último dia que é o dia do julgamento quando eles e o inferno serão lançados no purificador lago de fogo, de onde o povo sairá em paz com Deus. E o povo que aceitou Jesus durante sua vida não irá para o inferno, ou para o lago de fogo, mas estarão com Deus, e somente eles serão a noiva de Jesus com quem dirigirão a humanidade por toda eternidade. Então nós somos purificados agora pelo fogo do Espírito Santo, ou depois no fogo eterno. Eu aceito que essa visão universalista é entendida como herética pela maioria dos cristãos – eu teria concordado com isto alguns anos atrás – mas foi o um estudo honesto da doutrina que me levou a crer assim.

Favor notar também que, com relação a outras doutrinas, como santificação, por exemplo, eu sou muito wesleyano. De qualquer modo, eu não creio que ter atendido a verdade total nessas matérias, mas eu tenho uma mente aberta. Não estou procurando debate, nem tentando doutrinar pessoas com meu ponto de vista. Eu simplesmente desejo informar vocês sobre os meus pontos de vista e encorajá-los a examinar honestamente as opiniões e ideias expressas. Se alguém desejar discutir o universalismo cristão, eu estou sempre aberto para uma edificante discussão.

Terje  Ronneberg


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