Pantomima na Bíblia é coisa séria

Desolação da abominação, Wojciech Stattler (1800-1875)
Leia Jeremias 13.1-11
Por mais de uma vez eu disse nesse blog que todo capítulo 13 dos livros da Bíblia, mesmo que ela não tenha qualquer relação com a numerologia ou com a Cabala hebraica encerra enigmas que exigem reflexões bem mais acuradas que os demais capítulos, e o livro do profeta Jeremias não foge a esta regra. Jeremias 13 narra a pantomima do cinturão de linho novo que é deixado para apodrecer nas águas de um rio estrangeiro.

A pantomima ou encenação gestual é um recurso antigo de comunicar uma mensagem impactante com o menor número possível de palavras, utilizando-se, no entanto, de uma variedade de gestos ou expressões corporais. Mesmo que não pareça viável que Jeremias tenha viajado até o rio Eufrates, não apenas uma, mas pelo menos duas vezes, para esta comunicar esta mensagem, prevalece a ideia de que algo precioso e muito utilizado no culto foi propositalmente deixado para apodrecer em águas estrangeiras sem que nunca tenha sido molhado antes pelas águas de Israel.

Jeremias não faz mais do que pegar um cinturão de tecido nobre, que usualmente era ostentado com orgulho pelas figuras mais proeminentes de Israel, ou seja, aquela peça cara e de cor berrante que distinguia de longe quem era quem na religião judaica e quem visivelmente se destacava no cenário político e religioso, para provocar a sua deterioração precoce em águas pagãs. Este é um ato simbólico relativamente simples quando comparado ao de outros profetas que não se limitaram ao exequível e nem mediram consequências para comunicar a Palavra de Deus. Embora este gesto pareça inocente, diante do que fez Isaías, quando andou nu por três anos ou, de Oséias, que faz questão de trazer de volta a esposa adúltera que se prostituíra, tem implicações sérias e oportunas para a nossa vida cristã, mesmo após ter se passados tantos anos.

Primeiramente fala daquilo que é importante e caro para a religião, mas que não se permite contagiar por ela. Fala sobre tudo aquilo que tem valor para a religiosidade humana, mas que não carrega consigo o menor resquício de uma relação justa para com o próximo ou agradável a Deus. Fala daquilo que exibimos com orgulho, que nos faz parecer diferentes, que nos confere status aos olhos humanos, mas que para Deus já teve, há muito, seu prazo de validade expirado, que para ele já apodreceu  faz tempo. Fala de expressões e atitudes que são profundamente simbólicas na sua natureza, mas que na realidade se tornaram disfarçadamente diabólicas no seu uso.

Não cabe a mim ficar enumerando este ou aquele procedimento, e nem fazer julgamento de atitudes, mas o que tem se percebido, pelo menos na Internet, no elaborado estágio em que se encontra a pantomima gospel, em que o que estão sendo exaltados são justamento os valores mesquinhos e discriminatórios. Eu estou salvo e você não. Eu estou com a verdade e você com a mentira. Eu sou de Deus e você é do Diabo.

Mas felizmente o texto não para aí. Esta é uma pantomima de mão dupla. Ela deixa claro também do quanto é destrutiva a contaminação por elementos estranhos. Pensando bem, o problema maior talvez nem seja o mau uso dos recursos disponibilizados pelo Cristianismo através das experiências deixadas pelos nossos heróis e mártires, e sim a intromissão de práticas e costumes estranhos aos seus ritos e preceitos básicos da fé. Tem muita gente que, assim como eu, não está pecando por ação e si por omissão. Exatamente por isso que Jeremias foi mais específico. Ele estava querendo mostrar também que até mesmo as manifestações mais puras e sinceras podem em pouco tempo se deteriorar quando se deixam influenciar por elementos estranhos e antagônicos ao culto cristão. Ele está nos dizendo: Não importa o quanto os seus cargos sejam influentes, o quão bem manuseiem a Bíblia, ou quanto tempo tem de igreja, se vocês se vocês forem fermentados em vez de fermentar, se vocês de deixarem temperar em vez de serem sal, se vocês entrarem na luz dos outros em vez de os iluminarem; vocês vão apodrecer.

Precisamos tomar um cuidado extremo com tudo que está além dos mandamentos de amar a Deus de todo nosso coração, de toda a nossa alma e de todo nosso entendimento e de amar ao próximo como amamos a nós mesmos. É muito bem vindo o acréscimo de Santo Agostinho, quando diz que devemos ter unidade no essencial, liberdade do secundário e amor em todas as coisas. Os mandamentos prescritos são de fato essenciais, como secundárias são todas as coisas que foram citadas nesta meditação. Deveríamos concluir que as práticas comentadas, contrariando a profecia de Jeremias, estariam no campo daquilo que temos liberdade para fazer ou não, mas ainda prevalece a advertência que Pedro faz na sua primeira carta: Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus.

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