Transfiguração I

Transfiguração,Ernesto Thomazini em 1924
É importante ler Lucas 9,28-41
Jesus acabara de anunciar pela primeira vez a sua paixão e morte, mas, ao que parece, os discípulos não tiveram uma visão esclarecida deste momento singular. Para eles, Jesus veio trazer, juntamente com o Reino, a hegemonia de Israel sobre todos os povos, mais particularmente sobre os romanos. A partir daí Jesus começa a mostrar que o seu Reino fará muito mais do que uma simples inversão no poder, e que isso não se dará através da contemplação.

Jesus escolhe três dos seus discípulos para acompanhá-lo em um retiro espiritual. Curiosamente os mesmos três que o acompanhavam mais de perto: Pedro, Tiago e João. Enquanto Jesus orava e eles dormiam, transfigurou-se diante deles. Transformou-se naquilo que Paulo mais tarde chamaria de corpo incorruptível e suas roupas resplandeceram. Ainda que não totalmente despertados, os três discípulos experimentaram de imediato duas reações diferentes: temor e êxtase. É muito provável que foi esta combinação de sentimentos que os levaram a subornar Jesus com a oferta tentadora de três tendas, de onde podemos tirar igualmente três conclusões:
O ser humano imagina que pode de alguma forma pagar pelas manifestações de Deus.
Por ter uma visão curta, pensa que o Reino é exclusivamente para si e cria redomas para retê-lo.

O ser humano ainda acredita em um Deus criado à sua imagem e semelhança.

Pediria a atenção de vocês para a sequência dos acontecimentos e do quantos eles corroboram com as conclusões acima.

Primeiramente ressaltar o fato de que eles subiram o monte para orar. Não há nada de errado em querermos um pouco de privacidade na hora de uma conversa íntima com Deus. Existem coisas na minha vida que somente eu e Deus conhecemos. O isolamento é o local propício para um diálogo franco e sem chavões, porque somente assim posso abrir o coração diante daquele que me conhece por inteiro.

Em segundo lugar, também não há nada de errado em querermos contemplar a glória do Senhor. O salmista há muito tempo manifestou que o objeto do seu desejo era contemplar a beleza do Senhor e meditar no seu templo. Seria muito bom que ficássemos apenas nisso, em vez de tentar contemplá-lo através de suas criaturas.

Da mesma forma, não há nada de errado em se sentir bem na presença de Deus. Quando Pedro disse: É bom estarmos aqui, falou por todos nós. Por mais que Jesus condenasse os delitos praticados no templo, o seu amor pela casa do seu Pai era incontestável, e seu maior desejo era vê-la engajada no propósito para o qual foi edificada: A minha casa será chamada casa de oração e será para todos os povos. É muito bom estarmos na casa de Deus, principalmente quando temos a consciência de que a casa é realmente de Deus. É um local diferenciado da minha casa e da casa dos meus pais, porque é onde nos sentimos nivelados. Desde o mais letrado teólogo, ao que se inicia na catequese; do mais antigo membro, ao que a visita pela primeira vez, a igreja é onde deveríamos nos sentir mais à vontade, onde deveríamos dizer com toda sinceridade: É bom estarmos aqui.

Ainda há um quarto elemento válido, e sobre o qual não paira qualquer recriminação. Fazer tendas, ampliar as instalações ou construir igrejas em locais afastados, é extremamente positivo. Se existe uma responsabilidade nossa para com a construção que recebemos pelo esforço, pelo carinho e pela dedicação dos nossos antepassados na fé, é a de repassá-la às gerações futuras em melhores condições do que a encontramos. Se devolvermos a quantia exata de talentos que recebemos, o melhor que se dirá de nós, é nos chamarmos de servos inúteis.

Uma vez ditas essas coisas, vamos passar a falar mais propriamente do assunto proposto: a transfiguração. Uma rápida análise do texto nos fará conscientes de que a principal finalidade do evangelho não está sendo conseguida. Orar, louvar, contemplar, conservar e construir igrejas é tudo muito bom, mas ainda são passos tímidos em direção ao propósito de Deus de salvar o mundo. Vamos descobrir que ainda estamos no monte, como simples espectadores das ações concretas de Deus. Muitos outros discípulos se juntaram e outros tantos ainda se juntaram a nós, porque, assim como nós no passado, também descobrirão que permanecer no monte é de fato muito bom. Mas Jesus nos fará descer para o vale, porque lá há um filho de Deus sofrendo e ele precisa ser alcançado pela maravilhosa graça. (continua)

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