Sermão com rabo

Os sete diáconos, Fra Angelico (1387-1455) 
Esta é uma expressão usada antigamente para designar uma palavra de correção, explicação ou, mais raramente, de confirmação, que se seguia ao sermão pregado por alguém que não fosse o pastor titular da igreja. Palavra essa que, invariavelmente, despregava o sermão que o pregador havia feito, pelo menos na sua essência. O pregador pede atenção para um determinado aspecto da Palavra de Deus, e o pastor local despede, atraindo o foco para outro aspecto diferente, e não poucas vezes contrário do que havia sido anunciado. Sempre aprendi que numa liturgia correta, após o sermão canta-se um hino, faz-se uma oração, impetra-se a bênção e o culto é dado por encerrado. A única exceção possível é quando há ministração da ceia, o que normalmente não acontece em todos os cultos. Em alguns casos raros, quando um aviso de relevante interesse da comunidade se fazia necessário, o dirigente simplesmente pedia que se interrompesse o hino para proceder ao aviso, deixando claro que era um intervalo excepcional, soando mais como um temeroso pedido de desculpas no culto que era dedicado exclusivamente a Deus.

Muitos podem achar exagerado este rigor litúrgico, mas assim funcionava porque tinha um propósito bastante definido: para que a última impressão do culto deixasse o ouvinte sob o impacto do desafio que o sermão havia proposto. Talvez fosse necessário que eu dissesse antes que o sermão era objetivamente para desafiar a igreja a uma mudança de atitude ou de mente. Um velho professor de Homilética dizia que sermão não é para agradar quem quer que seja. Sermão é para conversão. Quando alguém não saísse convertido e empenhado a assumir o desafio do sermão, tinha mais que chutar o balde indignado contra aquela palavra. Segundo a sua experiência pessoal, se o sermão não atingisse esse objetivo, podia ser chamado de qualquer coisa, menos de pregação da Palavra de Deus.

De um dado nós podemos estar convictos: não deve ter sido por falar coisas que as pessoas gostam de ouvir que os profetas foram perseguidos. Não foi pelo fato de enaltecer o status quo vigente que Jesus foi crucificado. Da mesma forma, os apóstolos e os primeiros cristãos não foram martirizados por aplaudir de pé o estado de coisas que aconteciam à sua volta. Então caberia a seguinte pergunta: teria a situação melhorado de tal forma que hoje a pregação desafiadora não tem mais sentido para os nossos dias?

Desde sempre aprendemos que a pregação deve anunciar o amor de Deus, que se tornará pleno na instalação definitiva do seu Reino sobre a terra. Sabemos também que o anúncio da Palavra de Deus deve soar como uma boa notícia aos ouvidos daqueles que a ouvem, daí deriva-se o seu nome: Evangelho, que no primeiro século era a palavra empregada para um tipo de gorjeta ou recompensa que se dava ao emissário, quando este trazia uma novidade excepcional. E foi justamente aí que começamos a embaralhar os fatos. Vou precisar de um tempinho para esclarecer este ponto de vista.

A primeira confusão que se estabeleceu é que o evangelho passou a ser pregado para quem deveria pregá-lo. Isto mesmo. O evangelho nunca deveria ser anunciado como se fosse uma boa notícia para a igreja. Esse anúncio é para ser dado ao mundo, e, para o nosso espanto, preferencialmente ao mundo adverso e perseguidor que constantemente renega a essa igreja. Não faz sentindo algum ficar anunciando repetidamente aos membros de uma comunidade cristã que eles estão salvos em Jesus Cristo. Quem não está convicto desta salvação deveria pular fora do barco e tentar nadar atrás dele até estar de fato convertido, a ponto desta verdade ser inquestionável em sua vida. Paulo dizia que se não cremos que Cristo ressuscitou para nos redimir de todo e qualquer pecado, era vã a sua pregação e vazia a nossa fé. Seria bom que se ouvisse o que João do Apocalipse disse às igrejas de Pérgamo e Éfeso sobre a doutrina nicolaíta. Doutrina que pregava com determinação privilégio do prazer acima do dever. Para estes, a igreja deveria se sentir bem, confortada e segura, antes de se empenhar nos desafios do evangelho, porque somente as pessoas bem sucedidas, vencedoras e prósperas poderiam dar bom testemunho, tomando como partida a sua experiência pessoal de vitória.

Para Paulo, uma igreja sem fé era oximoro impossível, uma realidade inconcebível, posto que ela só poderia ser chamada de igreja se, em algum momento do passado, cada um dos membros que a compõe, acreditaram, pela fé, nesta realidade não impossível, mas transcendente; não visível por olhos humanos, mas pelos olhos desta mesma fé. Não que eu acredite que todas as pessoas que normamente frequentam uma igreja estejam desta forma convictas, mas a minha fé no poder do evangelho tem que transcender as minhas convicções e conclusões.

A verdade é que o evangelho é uma boa notícia para ser dada àquele que não o conhece. Não disse àquele que nunca a ouviu como notícia, e sim àquele que nunca o conheceu o evangelho. O anúncio até pode ser com palavras, mas a pregação fiel e integra do evangelho se dá unicamente através de atitudes. Atitudes que nem sempre conduzem a igreja a pastos verdejantes, a águas tranquilas e que poucas vezes na vida farão o meu cálice transbordar. Pregar o evangelho, se preciso for, até com palavras, disse São Francisco de Assis. Mas talvez alguns me perguntem nesta hora: Se esta é a função da igreja, então qual seria a do pastor ou do pregador? Este é um aspecto que analisaremos a seguir. (continua)

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