Pareceu bem ao E.S. e a nós

Judeu em orações III, Lasar Segall (1891-1957)
O Calendário Litúrgico recomenda para hoje a leitura de Atos 15,22-31, que descreve quais foram as resoluções finais daquele que ficou conhecido como o primeiro concílio da igreja cristã, o Concílio de Jerusalém, ocorrido por volta do ano 48 d. C. Ainda não havia se passado vinte anos da morte de Cristo e a igreja já precisou se reunir para resolver problemas universais. Para aqueles que não estão lembrados, este concílio tratou simplesmente de nós, ou seja, da adesão e do comportamento de pessoas de origem não judaica, os convertidos do paganismo à fé cristã, que até então contava apenas com adeptos entre os judeus. O que detonou a sequência dos fatos foi a constatação de que o Espírito Santo de Deus estava realizando entre os não judeus prodígios ainda maiores do que eles haviam testemunhado em seu meio. Aquele antigo questionamento invejoso que levou Caim a matar Abel: Por que Deus age assim com ele e não comigo?

Em uma conclusão precipitada podemos perceber que os líderes da igreja, Tiago, irmão do Senhor, e Pedro tiveram que se render às evidências. A ação de Deus entre os pagãos se fazia incontestavelmente presente. A sua Palavra encontrou um eco nos corações que não conheciam a lei de Moisés mais retumbante do que o que soava em seus próprios corações. Nada diferente do que Jesus já havia antecipado quando disse que prostitutas e publicanos os precederiam no Reino de Deus, e, mais precisamente, quando exaltou a fé do centurião acima de qualquer outra, pois nem mesmo em Israel ele tinha visto fé como aquela. Contudo, a despeito de todas as evidências confirmarem a necessidade da ruptura definitiva da fé cristã do judaísmo, a ponta do legalismo patriarcal insistiu em aflorar. Tiago, o famoso autor da Epístola de Palha, segundo Lutero, determina que alguns princípios básicos se faziam necessários. Logicamente com o intuito de resguardar o mínimo de autoridade da igreja mãe sobre as demais: Com efeito, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor outro peso além do seguinte indispensável: que vos abstenhais das carnes sacrificadas aos ídolos, do sangue, da carne sufocada e da impureza. Os novos convertidos não precisavam fazer muito, somente cumprir a rigorosa dieta kosher. De todo o restante eles estariam livres.

Não seria preciso dizer que Paulo, que nesta época ainda era assessor de Barnabé, saiu deste concílio plenamente convicto a não cumprir qualquer destes absurdos preceitos. Naquele instante a fé de cabresto conquistou não somente um desafeto, mas o seu maior opositor. Cristo nos libertou para que nós sejamos realmente livres. Por isso, continuem firmes como pessoas livres e não se tornem escravos novamente. Prestem atenção! Eu, Paulo, afirmo que, se vocês deixarem que os circuncidem, então Cristo não tem nenhum valor para vocês.

Talvez essa fosse uma boa introdução para denunciar a atual inserção de costumes e artefatos judaicos nos cultos cristãos. Mas isso eu já comecei a fazer. Jurei a mim mesmo não pregar em púlpitos em que elementos como menorah e óleos ungidos estivessem presentes. Aliás, óleo ungido é irracional até na semântica. Eu gostaria imensamente de saber com que aditivo esse tal óleo é ungido. Com o Espírito Santo, vai me responder a esmagadora maioria. Esta meditação não é sobre óleo e muito menos sobre unção. A primeira postagem deste blog trata deste assunto. Gostaria de falar rapidamente sobre a pretensa parceria de atitudes e pensamentos que mantemos com o Espírito Santo.

Podemos notar logo de saída que o grande Tiago falou uma grande besteira. É bem provável que o sucesso incontestável do ministério de Paulo, acima de qualquer outro antes e depois dele, tenha sido alcançado justamente por reconhecer que Tiago falava uma grande besteira, e passar a agir em sentindo oposto àquela determinação. Paulo percebeu desde muito cedo que era o mensageiro e o estilo da mensagem que deveriam adaptar-se ao ouvinte, e não o contrário. Recentemente ouvi que um pastor de uma grande igreja tradicional, com raízes profundas no Ecumenismo, proibiu que seus membros visitassem pessoas de dois credos específicos. Não vou citá-los pelo respeito que tenho às pessoas que abraçaram fiel e honestamente estes credos. Somente este fato já seria desastroso em si. Mas se torna trágico porque esta mesma igreja anualmente promove um escamoteado proselitismo através culto de evangelização, que, inspirado em Cora Coralina, é chamado de Dia do Vizinho.

Tenho que confessar que também não era esse o rumo que eu pretendia dar a esta meditação. Este pensamento me tomou de assalto. Pretendo, sem promessa, voltar ao sentindo originalmente proposto em breve. Permitam-me na conclusão não levar em conta o aspecto moral desta decisão, mas com certeza alguém vai dizer que ela também pareceu bem ao Espírito Santo e a ele. As questões levantadas aqui dizem respeito apenas ao aspecto racional do assunto. Não ouso sequer tentar imaginar como Deus o está vendo, mas baseado nos antecedentes do Concilio de Jerusalém, digo aos meus irmãos desta amada igreja e de tantas outras que consideram este princípio como bíblico: Se vocês cumprirem com esta determinação, Cristo não tem nenhum valor para vocês.

Não espero que levem em consideração estas minhas palavras, mas espero que, pelo menos, ouçam o que Lutero tem a nos dizer: O Reino de Deus tem que ser estabelecido em meio aos teus inimigos. Quem não quiser se sujeitar a isso não tem parte no Reino de Deus, mas quer viver cercado de amigos, viver em um mar de rosas, na companhia de gente piedosa, jamais de gente má. Ó blasfemadores de Cristo! Se Cristo tivesse agido como vocês, quem teria se salvo?

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