Messias de Ramos

Entrada Triunfal, Pietro Lorenzetti (1280-1348)
A primeira ideia que este domingo traz à mente de um evangélico tradicional é de católicos saindo das missas carregando ramos de palmeira, mas que não tem um significado maior para si. Para os ambientalistas ateus não passa de um desnecessário desmatamento, o que redunda em uma agressão à natureza. Para o povo da época foi uma festa dentro da festa. Se já era bom comemorar a Páscoa, com a chegada de Jesus ficou melhor ainda. Para os evangelistas, foi o evento decisivo na trajetória de Jesus rumo ao confronto final, uma vez que os quatro foram unânimes em quase todos os detalhes de suas narrativas. Porém, a colocação de ramos de palmeira para que Jesus passasse não foi um destes detalhes.

Lucas, o único politicamente correto, menciona apenas que o povo colocou as suas vestes, ou seja, um domingo sem ramos. Na avaliação do tipo de pessoas e da quantidade que presenciou este evento, também não há consenso entre os escritores bíblicos. De uma grande multidão de todas as partes a uma reunião exclusiva dos discípulos de Jesus, podemos imaginar qualquer número e qualquer tipo.

Mas há algumas perguntas que não querem calar. Por que um homem que nunca se autoproclamou Messias é reverenciado como tal? Por que um Messias que nunca pegou em uma arma e não expulsou um único invasor de seu país é reverenciado por metade da população mundial? Por que este alvoroço criado por Jesus e por seus potenciais apóstolos não causou apreensão às autoridades romanas? Por que Messias que tiveram maior projeção em suas épocas estão foram completamente esquecidos pela História. Por que um carpinteiro pobre que, contra todas as expectativas, após ter conseguido galgar o posto de Messias, de repente é visto como o próprio Deus?

Estamos na época da Páscoa. Talvez a data do calendário romano que causasse a mais extrema preocupação. A Páscoa nada mais era do que a festa em que uma nação numerosa e rebelde, que conta com patriotas ferrenhos em todos os cantos do Império e com guerrilheiros providos de “fé cega e faca amolada”, está comemorando a libertação de seu povo do Egito debaixo de uma cabal e degradante opressão romana. Poderia este acontecimento ser vultuoso, como nos fizeram crer, sem provocar um levante armado ou uma reação imediata e drástica dos romanos? Acho muito difícil. Qualquer um que se anunciasse como rei de Israel seria no máximo considerado louco, mas a simples menção da palavra Messias fazia abalar a mais firme pilastra do palácio de Cesar. Mais do que um rei por herança ou por aclamação, um Messias representava a única possibilidade de libertação, e a ele não havia um único judeu que não jurasse lealdade. Um Messias sozinho valia mais do que doze legiões romanas. Então como é possível que alguém que foi aclamado publicamente como Messias e não tivesse despertado qualquer interesse ou suspeita por parte das autoridades romanas em seu estado de alerta máximo?

A tradição judaica está repleta de Messias, aliás, todas as vezes que os judeus se viam escravizados por outros povos, a providência de um Messias era imediatamente requerida. Os judeus eram tão fascinados pela figura do Messias que até um rei estrangeiro não descendente de Davi, Ciro, se prestou para o papel. Isso para não de Sabbatai Sevi, Bar Kochba, Judas Macabeus e muitos outros. Aí nasce Jesus em Belém, segundo a melhor das profecias bíblicas, e recebe do João o batismo que lhe confere o título de Cristo. Embora hoje seja por muitos considerado um sobrenome, Messias era um título conferido apenas a humanos. Em certa Páscoa Jesus resolve entrar em Jerusalém, não a pé como fizera outras vezes, mas montado em um jumento, também segundo o melhor das profecias. Alguns céticos poderiam afirmar que Jesus poderia de antemão ter calculado estrategicamente os seus movimentos para satisfazer as profecias messiânicas. Contudo, algumas profecias se cumpriram sem que Jesus tivesse o menor controle ou influência.

A fé cristã fundamenta-se em parte neste mistério que foi o anúncio e o cumprimento de profecias que foram aguardadas com ansiedade por séculos. De uma forma ou de outra herdou do Judaísmo esta expectativa do que está por vir, por isso é que muitos continuam aguardando, não mais a primeira, mas segunda vinda do Messias. Não mais como guerreiro libertador e organizador do estado de Israel, mas aquele que vem pôr um fim a todas as coisas e pessoas que se declaram contrárias à vontade de seu Pai. De repente, após a sua ressurreição, Jesus não é mais visto apenas como o Messias prometido, mas como Deus encarnado. O Deus que transgride o seu primeiro e mais importante mandamento e se configura com uma imagem.

Então como era de fato o Messias que entrou no domingo anterior à Páscoa em Jerusalém no século primeiro da nossa era? Quem, para nós, é o Messias de Ramos? Logicamente que não foi aquele que se imaginava, nem o que não traduziu todas as expectativas vigentes. No entanto um elemento tem que ser considerado nessa hora: a vida de Jesus sempre foi coerente com a mensagem que pregava. A entrada triunfal em Jerusalém foi como a parábola do tesouro escondido. Somente aqueles que tiveram a felicidade de encontrá-lo naquele dia, tiveram a boa vontade de, dispondo-se do que tinham à mão, suas vestes, seu tempo e sua racionalidade, saudá-lo com salmos e hinos, a despeito da desconfiança romana. Que Deus nos conceda mais essa graça.

A entrada de Jesus em Jerusalém foi como a parábola da fé, que começou simples e singela como um grão de mostarda, mas que se transformou numa frondosa árvore, onde todas, indistintamente todas as espécie de pássaros possam fazer seus ninhos. Que este Domingo de Ramos seja realmente o domingo da entrada do Messias. Não mais em Jerusalém, mas a sua entrada definitiva em nossos corações. Que neste domingo possamos nos esquecer para sempre das nossas pequenas e egoístas reivindicações, para celebrarmos com ramos, roupas e com o que tivermos à mão a chegada do único que realmente pode responder aos anseios do mundo na sua profunda e sincera necessidade.

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