Romerito, o bispo dos pobres

Se me matarem, 
ressuscitarei na luta do meu povo.
Peço licença para abrir um espaço nas postagens deste blog, que é totalmente dedicado à propagação do evangelho, para dedicar umas poucas palavras em homenagem a um dos poucos heróis da fé que tenho fora da Bíblia. Quero falar de Dom Óscar Arnulfo Romero Galdámez, Monsenhor Romero ou Romerito, como gostava de ser chamado. Dom Romero era o arcebispo da Igreja Católica em El Salvador quando foi assassinado em 24 de março de 1980. Pacifista ferrenho foi comparado à Gandhi e a Martin Luther King, tornando-se desta forma o maior mártir latinoamericano da fé cristã. Pode parecer que esta homenagem chega um pouco atrasada, em virtude do aniversário da sua morte ter se dado no último sábado, mas a referência que faço leva em conta que o seu covarde assassinato aconteceu na semana anterior à Semana Santa. Dias que julgo oportuno para esta lembrança que enche o coração da igreja de Cristo de orgulho.

Quando eu menino em uma Igreja Metodista, no Rio, a congregação cantava um hino que dizia assim:
Que a beleza de Cristo se veja em mim.
Toda a sua admirável pureza e amor.
Ó tu, Chama Divina,
Todo o meu ser refina.
Té que a beleza de Cristo se veja em mim.

Embora seja uma música de tradição protestante, ainda não conheci até hoje alguém que a pudesse cantar com mais propriedade do que Dom Romero. Justamente pelo fato de ter morrido nas vésperas da Páscoa é que esta relação se torna mais evidente. Permitam-me citar algumas semelhanças entre o martírio de Dom Romero e a Via Crucis de Jesus, seu e nosso Salvador.

Dom Romero viu o rosto do seu assassino. Enquanto a congregação estava de costas para a porta do templo, ele viu a chegada do soldado que o alvejou fatalmente. Dizem os que participavam da missa que ele não mudou de atitude, continuou firme no seu sacerdócio. Exatamente o que aconteceu com Jesus. Enquanto seus discípulos dormiam ou se distraíam ele viu chegar a guarda armada para prendê-lo.

Dom Romero foi morto por um atirador de elite do exército salvadorenho, da mesma forma que a escolta que levou Jesus ao Calvário era composta dos mais bem preparados soldados daquela legião romana.

Assim como seu mestre, o arcebispo de El Salvador fez uma clara opção pelos párias, renegados e isolados da sociedade, o que lhe valeu o título de Bispo dos pobres. Tudo fez sem fomentar qualquer sentimento de vingança ou ódio. Nos passos de Jesus pregou a convivência pacífica, uma vez que a justiça fosse a voz mais ouvida. Disse certa vez: Creio que fazer esta denúncia, na minha condição de pastor do povo que sofre a injustiça, seja meu dever.

A sua morte não foi uma ato isolado. Vários outros pregadores do evangelho foram assassinados na América do Sul naquele período. Na Bíblia temos o relato da morte de João Batista, de Teudas e de Jesus, o justo, mas há registro de muitos outros que foram martirizados pela liberdade.

Jesus foi por diversas vezes ameaçado de morte, e não por poucas vezes aqueles que lhe eram próximos tentaram dissuadi-lo. O mesmo se deu com Dom Romero que por várias vezes lhe sugeriram uma inaceitável transferência. Fui frequentemente ameaçado de morte. Devo dizer-lhe que, como cristão não creio na morte sem ressurreição.

Como Jesus, Dom Romero não somente aceitou a morte como consequência inevitável, como também perdoou antecipadamente os seus assassinos: Minha morte, se for aceita por Deus, que seja pela libertação do meu povo e como testemunho de esperança no futuro. Você pode escrever: se chegarem a me matar, desde já eu perdoo e abençoo aquele que o fizer.

A despeito de tudo o que foi relatado, tenho pra mim que a maior semelhança se deu entre o seu funeral e a entrada de Jesus em Jerusalém. Quando Jesus entrava triunfalmente na cidade, não faltaram aqueles que o desdenharam. Muitos até disseram que não passava de uma manifestação de bêbados. Pois bem, em minúsculos espaços a imprensa brasileira noticiou a morte de Dom Romero, fazendo-lhe a infeliz referência: Morreu um padre terrorista em El salvador.

Nem penso em querer aproximar a vida e o sacrifício de Dom Romero ao patamar do sacrifício de Jesus, o Cristo, e nem ele aceitaria que se fizesse tal comparação. Mas é inevitável concluirmos que aqueles que se dispõe a seguir o Salvador tem por obrigação perecerem-se, como pede o hino acima, o máximo possível com ele. E que ninguém se iluda que a trajetória e desfecho de suas vidas sejam diferentes da que se deu com o nosso Mestre.

Termino com o hino de vitória do nosso irmão, pastor e mártir do passado recente: Se me matarem, ressuscitarei na luta do meu povo. 

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