Perante a face do que vem

Isaías de Michelangelo
Perguntaram a uma menina de cinco anos o que ela estava desenhando. Deus, disse ela. A mãe a contestou dizendo: Como você pode desenhá-lo se ninguém o viu e não se sabe como ele é? Respondeu a menina: Daqui a poucos minutos vocês saberão.

O grande desejo do homem, desde que conseguiu caminhar de pé é justamente este: enxergar de uma forma ainda que não bem definida, a visão do rosto de Deus. Estar frente a frente como ele, na linguagem bíblica: perante a sua face. Se por um lado, esta vontade ou necessidade nasce quase que espontaneamente, por outro foi muito bem sedimentada por promessas e ao longo da história das religiões, e a fé judaico-cristã não seria diferente neste aspecto. As Escrituras mostram que o desejo humano de ver a face de Deus, foi sempre maior que a própria revelação de Deus para com os homens. Deus se revelou muito menos do que gostaríamos.

Até mesmo a mais bem documentada e detalhada teofania, a visão de Deus na corte celestial que Isaías teve quando foi ao Templo, não nos é suficiente. Ela descreve o ambiente, as vestes, a expectativa, a tensão, os seres celestiais e até mesmo as consequências. Mas não trás uma linha sequer, descrevendo ou dando pistas de como é de fato o contorno do rosto do Deus que se revelava ali, naquela hora. Mesmo sem contar com este dado essencial, ainda assim a literatura bíblica é enfática e em colocar na boca de várias pessoas a frase que marcou a grande virada de mesa na vida de Isaías: “Eu vi o Senhor.” Dentre estes, podemos contar a visão de Abraão, que foi em dose tripla; de Jacó, que não somente viu, mas que lutou com ele; de Moisés, cujo rosto refletiu a sua glória, e Jó, que foi desafiado a encará-lo. Isso para não entrar nas narrativas atuais de pessoas que, plagiando a nossa inocente desenhista e nada tendo de inocentas, servem-se bem deste expediente para promoverem-se como visionárias exclusivas e portadoras únicas da derradeira e definitiva revelação de Deus para os homens.

Mas a intenção é falar do desejo legítimo de estar perante a face de Deus, que é o grande motor da nossa fé. E não pode haver momento mais apropriado do que o Advento para se falar da chegada daquele que veio para nos mostrar a verdadeira face de Deus. Contudo, seria proveitoso que ao falarmos desta encarnação, alinhássemos as nossas expectativas à mensagem central da que é para nós a sua Palavra, para que não venhamos a nos equivocar com preconceitos que a precipitação ou a maldade humana tentam de todos os meios deformar.

A primeira condição para vermos a face de Deus é anunciarmos a sua chegada, porque a promessa é que o Senhor vem neste Natal. Muito diferente de tentar fazer uma profecia apocalíptica marcando uma data para o fim dos tempos, a certeza de que ele vem deve ser uma marca importante para nós neste Natal. Curiosamente são duas pessoas de idade avançada, de quem já não se deveria esperar mais nenhuma novidade é que surgem as declarações mais contundentes: “Bendita és tu entre as mulheres, e bendito o fruto do teu ventre!” Isabel enxerga na simples visão de uma mulher grávida, a mãe do seu Senhor, reconhecendo ser Maria a maior mulher que a existência humana jamais conheceu. Através desta revelação ela declara toda a sua expectativa na chegada, confirmando que no tocante à responsabilidade que coube à Maria, Jesus vem. Isabel tinha diante dela a pessoa que Deus havia separado para se fazer carne e habitar entre nós. “Agora, Senhor, podes despedir em paz o teu servo segundo a tua palavra; porque os meus olhos já viram a tua salvação, que preparaste na presença de todos os povos.” Já Simeão, glorifica a Deus pela sua condescendência e, permitir-lhe a visão do Salvador como a última da sua longa existência. Desse modo, o velho e cansado Simeão faz do seu derradeiro anúncio, o mais excelente dentre todos os de sua vida. O anúncio que Deus leva a cabo a sua promessa, e que esta, mesmo sendo encarnada numa frágil criança, não tem como ser contida, mas alcançará a toda humanidade.

A segunda condição é alastrarmos o vírus que deve contagiar incondicionalmente a todos. O Natal é para todo mundo, porque no presépio Deus quebra todas as barreiras que existiam entre anjos e pastores, astrólogos babilônicos e sacerdotes judeus, homens e animais, céus e terra. É este sincretismo incontrolável que nos garante com a máxima convicção que o Natal vem indiscriminadamente para todo o universo. Simeão e Ana são a prova de que ninguém é velho demais; os magos confirmam que ninguém está distante pela sua raça ou que fica de fora pela religião que professa; os pastores testemunham que ninguém é excluído por sua posição social. Não sabemos se existe vida em outro planeta, mas se houver podemos ter a certeza absoluta de que até mesmo os homenzinhos verdes celebram a chegada do Filho de Deus que veio a um obscuro planeta azul que possui uma única lua e que fica num sistema cujo sol é amarelo.

A terceira condição: precisamos estar atentos para reconhecer efetivamente a face de Deus. Na ponta oposta da sua vida terrena, após ter ressuscitado, Jesus faz várias aparições que foram testemunhadas por pessoas diferentes. A Maria, sua mãe, reapareceu como um jovem de vestes brancas; a Madalena, como coveiro; aos caminhantes de Emaús, como um estrangeiro; a Simão Pedro, como um especialista em pesca. Por que Jesus teve a meticulosa preocupação de se mostrar para pessoas diferentes de modos diferentes e com rostos diferentes? Dois motivos ocorrem: o primeiro, porque não queria fixar a sua imagem como única, e a segunda, é porque queria conservar a lembrança de si mesmo refletida em todos os rostos. Sua última mensagem sem palavras foi esta: Querem ver a face de Deus? Olhem nos rostos das pessoas comuns. Querem ver como é o criador? Olhem para as suas criaturas. Não se enganem com visões mirabolantes de seres especiais, ou de manifestações espetaculares de pretensos escolhidos, Deus está no próximo. E esta é uma certeza que preocupa, porque querendo ou não, nós vamos ver a face de Deus neste Natal. Podemos até não reconhece-lo, ou mesmo não festeja-lo, mas que ele vai estar em nosso meio, é certeza de que vai.

A última condição é que não basta somente reconhece-lo na multidão, é preciso saber como ele é de fato. A doutrina triunfalista prega que o grande presente de Jó foi receber em dobro tudo o que tinha anteriormente. Mas uma análise mais consciente e menos interesseira vai perceber que o seu hino de vitória não enaltece valores e conquistas, mas sim uma nova consciência. Seu maior presente foi poder conhecer Deus como ele realmente é. Um Deus para além das superstições, dos achismos, dos que as pessoas dizem e das “definições conclusivas”. Neste Natal, mais do que em qualquer outro Natal, precisamos saber como Deus é e o que ele espera de nós.


Muitos não sabem o que é verdadeiramente o Natal e o caminho que leva à manjedoura é ainda desconhecido para muitos. Cabe a mim e a você propiciarmos as condições para que pelo menos em nosso universo de atuação ninguém fique fora deste Natal. É como quando as pessoas que nos procuram dizendo que não sabem como Deus é porque nunca o viram, possamos responder com a convicção da menina de cinco anos: “Daqui a pouco minutos, vocês saberão.”



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