Deus?

Jacó luta com o anjo de Delacroix (1798-1863)
Quem é Deus?
Deus é expressão mais comum e mais usual da palavra “absoluto”. Não este absoluto que conhecemos, que está restrito à nossa capacidade de abstração ou ao há de melhor no nosso entendimento atual. Alguém já disse: Deus não é maior do que pensamos, ele é maior do que aquilo que um dia possamos vir a pensar.

Como Deus se manifesta:
Deus se revela, permite-se ser conhecido e experimentado.

Como assim?
Se Deus se revela é porque ele está oculto. Ele não está em um lugar determinado onde possamos ir para encontrá-lo. Pascal disse certa vez que a religião que não declara que Deus está oculto não é a verdadeira religião. As experiências com Deus são sempre experiências reveladoras. Seja como resposta a uma oração, seja na antecipação de uma necessidade. Para os antigos, milagre não era uma ruptura nas leis fundamentais da natureza, era a presença de Deus. Quando Deus estava presente tudo podia acontecer, até o milagre.

Você está falando de curas milagrosas?
Não, para mim qualquer cura é sempre milagrosa, para mim só existe cura divina, aconteça onde acontecer. Porém, a cura não encerra o milagre em si. O milagre é sempre maior e mais abrangente. Ele contagia tudo que está à sua volta. A cura pela cura alguém sempre a reivindica para si, de uma forma ou de outra. Quando não é a igreja, é o missionário, o pai de santo, o guru etc. Mesmo quando a própria pessoa não chama para si a autoria, outros o fazem por ela, como é o caso dos santos, que nunca se anunciaram como milagreiros. Eu queria ver a reação de Dom Helder ou de João Paulo II quando souberem que estão querendo torná-los santos.

Por que as pessoas oram como se ele estivesse presente?
Por ser absoluto, Deus não tem limites nas suas formas de ação, e uma delas é essa proximidade, é essa presença transcendente que alguns ousam chamar de intimidade.

Mas ainda é longe de ser uma presença efetiva, não é?
A presença de Deus na Bíblia recebeu o nome de glória. Quando a sua presença era percebida pelos antigos, eles diziam que tinham visto a glória de Deus. Mas a palavra glória na perspectiva contemporânea significa o melhor momento, o apogeu de uma pessoa ou o clímax da sua performance. Em se tratando de Deus, há uma enorme diferença, porque no passado se entendia que glória era o resquício da sua presença depois que ele foi embora. Era como um perfume inebriante que não se sabia de onde exalava ou uma brisa refrescante que soprava fora de hora. Era presença tão marcante que apenas o resquício já se fazia suficiente para preencher a expectativa da sua proximidade.

Então as pessoas oram pensando que ele está ali, mas ele não está mais?
Se alguém pudesse dizer onde Deus começa e onde ele termina, poderia tentar responder a esta pergunta. Porém, se levarmos em consideração este parâmetro, a pergunta se torna completamente inapropriada. A expressão “foi embora” serviu apenas para diferenciar o que entendemos por revelação daquilo que chamamos de onipresença.

E onde está esta diferença?
A onipresença é universal e eterna, já a revelação é particular e temporal. É como quando alguém percebe algo do qual não se dava conta. É a descoberta do óbvio. Assim como no texto que narra a visão da Escada de Jacó: Deus estava neste lugar e eu não sabia! Contudo, mesmo sendo assim, a grande surpresa não inoculará a pessoa contra surpresas maiores e mais contundentes.

Para você existe um tipo de pessoa que não teve essa tal experiência com Deus, não é?
Sim e não. Logicamente que a primeira tem que ter havido. Ao contrário de Deus que é, nós apenas existimos. Ninguém de nós encontra-se na mesma categoria de eterno. Todos nós que já vivemos tivemos um começo de vida, e nesse começo tivemos experiências das quais não conseguimos nos lembrar. Dizer se tivemos ou não uma experiência com Deus nesse início é tão difícil quanto nos lembrarmos dela. Perguntaram ao filho de um amigo: quando havia sido a sua primeira experiência com Deus. Ele imediatamente devolveu a pergunta: quando foi a sua primeira experiência com a sua mãe?

Mas existe um momento decisivo. O momento de conversão, ou tudo continuará na mesma.
Vou voltar a citar esta família. O irmão deste amigo, que também é meu amigo, é filho de pastor, e foi criado desde que nasceu dentro dos preceitos do evangelho. Foi criado para ser uma boa pessoa, para que no futuro assumisse naturalmente o seu papel na sociedade. Certa feita este amigo foi questionado por uma pessoa que havia passado por uma conversão traumática. Tal pessoa exaltava a sua experiência como a única verdadeira, e cobrava desse meu amigo que tivesse uma experiência semelhante. Meu amigo o contestou dizendo: Você agora cria o seu filho nos preceitos em que você foi criado, ou o cria segundo os novos preceitos que aprendeu do evangelho? Você quer que ele seja uma pessoa boa naturalmente ou quer que ele passe pelo trauma que você passou, para ter, quem sabe, uma experiência igual o maior que a sua? Por mais que se argumente esta será a eterna luta entre as conversões por revelação e por iluminação.

Pra você, qual é a mais importante?
Pergunte a qualquer pessoa qual conversão gostaria de ter tido? Felizmente para o evangelho não tem diferença. Ambas estão no mesmo patamar, não há melhor conversão, nem pela forma, nem pela antiguidade.

Então, que é antigo na fé não leva vantagem alguma?
Não, no evangelho a lei do Gerson não funciona. Se bem que lá no fundo tem uma vantagenzinha. Aqueles que são mais antigos na fé podem ter a inenarrável alegria de ver seus filhos e seus netos caminhando na mesma fé que ele abraçou no passado. Os mais novos, que não tem um passado assim, não podem desfrutar desta bênção. Mas é uma vantagem que não coloca ninguém em desvantagem.

Ultima pergunta. Como você imagina ser a forma de Deus agir?
É impossível ver Deus como um personagem histórico, como alguém de quem se pode contar uma trajetória que se possa dizer visível. Fora da Bíblia, não vamos encontrar qualquer documento assegurando a ação objetiva de Deus num fato histórico. Mas podemos encontrá-lo nas evidências. O povo hebreu estava cativo no Egito fazia 400 anos, e documentos egípcios asseguram esta presença. Em um lapso de tempo bastante curto, esse mesmo povo é visto na Palestina livre e lutando para conquistar terras. Seria complicado explicar sem uma ação efetiva de Deus, que um povo ignorante e desarmado pudesse se libertar da maior potência bélica da época sem que ninguém desembainhasse uma única espada. Mas isso apenas serve para mostrar que a ação de Deus é sempre libertadora. Quando estes mesmos hebreus oprimiam outros povos, Deus vinha a eles como libertador, mas então como libertador do inimigo. Deus age de forma a libertar o homem de todas as coisas que o escravizam.

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