Por que templos e não igrejas?

Destruição do Templo de Francesco Hayez (1791-1882)
Hoje é difícil dizer se uma igreja é essencialmente carismática, tradicional ou que possui convicção liberal. É raro encontrarmos denominação que se molde cem por cento pelo padrão que a sua tradição determinou. Hoje em dia temos presbiterianos carismáticos, metodistas fundamentalistas, batistas liberais e por aí a fora. Diante dessa mudança radical podemos nos perguntar: será que guiados apenas pelos aspectos comportamentais e doutrinários, podemos chegar a um consenso do que seria hoje o perfil ideal do discípulo de Jesus? Será que apenas isso seria suficiente para qualificá-lo como tal?

Sem apologias ao saudosismo entende-se que: se os padrões antigos eram mais rígidos e mais impactantes, os atuais são mais universais, e, portanto, mais abrangentes. Ninguém na época passada estava preocupado com clonagem, com transplante de células tronco, muito menos com pirataria digital. Dizer-se cristão e não frequentar regulamente uma igreja, seria uma aberração. Se assim fosse, hoje, como avaliaríamos as pessoas que não estando ligadas à igreja, e servem a Deus segundo critérios próprios, às vezes até mais rígidos que os nossos?

Sem querer tomar partido de uma ou outra denominação, muito menos exaltar qualquer característica ou forma de culto, o que se pretende ao analisar esse emaranhado de usos e costumes que se tornou o cristianismo é simplesmente fazer uma avaliação pessoal. Sempre é hora de perguntarmos a nós mesmos: que tipo de cristão nós somos? No meio da crise de identidade que assola as igrejas essa pergunta é bastante pertinente.

Antes de traçarmos qualquer meta, devemos recorrer à fonte de toda a doutrina e fundamento da fé cristã, a Bíblia Sagrada. Recorrer mais especificamente aos evangelhos. Neles vamos encontrar o ponto de partida, pois ali estão narrados não somente os indícios do que o que realmente Jesus queria dos seus discípulos, como também os motivos que o levaram a se fazer carne entre nós? Se perguntássemos o que Jesus veio aqui, a maioria de nós responderia: salvar o mundo. Essa pode ser a resposta que justifica a sua paixão, morte e ressurreição, mas não traduziria de forma integral o que foi o seu ministério. O confronto vitorioso e definitivo de Jesus contra o mal se deu efetivamente na cruz, mas foi nos caminhos da Judeia e da Galileia, onde andou fazendo o bem, que ele anunciou a chegada da boa nova do Reino de Deus.

A sua obra fundamental foi a vitória contra o mal, mas não devemos nos esquecer de que este confronto deu-se exclusivamente pela sua pregação transformadora e libertadora. A pregação que mostrava claramente ser possível e imprescindível estabelecer uma nova ordem social, não mais baseada no direito legal, nem no poder, mas na justiça que está acima e além de todo poder, e de tudo aquilo que aprendemos a chamar de direito. Na cruz está a redenção para uma nova oportunidade de vida, mas na mensagem de Jesus estão os desafios para fazê-la plena.

Caso aceitemos isso como fato podemos voltar à pergunta inicial: que tipo de cristão nós somos? E também acrescentar mais um item: que postura de fé devemos priorizar? Os evangelhos nos dão conta de que ser cristão nos primeiros séculos era muito mais arriscado, mas era bem menos complexo. Neles, a resposta para muitas questões atuais não está explícita, porque no tempo de Jesus não eram essas as preocupações. Não havia uma igreja organizada, e por isso não se estabeleceu princípios para o seu bom funcionamento.

Os apóstolos mais tarde vão se ocupar em definir quais seriam as funções principais e secundárias. Mais tarde ainda, Paulo iria delinear as características necessárias para cada função, o que deu o nome de dons espirituais. Ele não somente se deu ao trabalho de defini-los, como estabeleceu uma hierarquia entre eles. Colocou em primeiro lugar o apostolado seguido da profecia, do ensino e da operação de milagres. Logicamente que ele não anteviu as derivações modernas dessas práticas. Unção do Espírito, regressão, danças, cai-cai, atos proféticos e as famosas coreografias da fé, que são quesitos essenciais para quem quer ser hoje um bom membro de igreja, não constavam na lista original.
Jesus foi o teólogo do Reino de Deus. Essa era não somente a tônica da sua pregação, mas quase que exclusivamente vocação do seu ministério. Jesus teve como meta básica anunciar que o Reino de Deus era chegado. Se houve umas poucas exortações e algumas cobranças no cotidiano dos seus discípulos, a razão focava unicamente o Reino. Quem me ama, segue os meus mandamentos (que priorizam o Reino). Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me (no caminho do Reino).

Em momento algum Jesus chamou para si a centralidade do culto, do louvor e da adoração. Pelo contrário, exauriu seu tempo, suas energias e a própria vida para anunciar o Reino de seu Pai. Então, por que as ênfases nos cultos cristãos de hoje, subvertem radicalmente esta ordem? Jesus nunca disse que deveríamos amá-lo acima de todas as coisas, pelo contrário, só fez confirmar o velho e bom mandamento: amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração. Nunca disse para que as orações devessem ser dirigidas a ele, mas ao Pai que está no céu. Nunca ensinou um cântico sequer de louvor ao seu nome. Em uma das citações mais contundentes da sua pregação, se apresenta apenas como caminho que leva ao Reino, nunca como ponto de chegada e muito menos como consumação desse Reino. Abrindo mão de tudo isso, fez de sua vida um hino de louvor a Deus. 

Diante disso, seria errado concluir que as confissões de fé, as manifestações de fidelidade, juras de amor eterno e exaltação acima de todas as coisas, enfim, toda a ênfase nos cultos modernas tendem a cair no vazio, se não forem precedidas de ações concretas em favor do Reino, que Jesus veio anunciar, e pelo qual se deixou ser crucificado? Precedida é a palavra chave, porque segundo ele próprio, devemos buscar, antes de tudo, o Reino de Deus e a justiça inerente a este Reino, porque as necessidades e expectativas viriam a reboque. Penso que para definir o tipo de cristão devemos ser hoje, já temos um ponto de partida: o cristão deve priorizar o Reino de Deus e a sua justiça.

Porém, é mais que sabido que essa busca pelo Reino não se faz individualmente, ou aleatoriamente. Ela se dá em comunidade. Existe uma igreja por trás daquilo que somos, pregamos e vivemos. Mesmo consciente de que devo priorizar o Reino, eu sou devedor dessa igreja, e ela exige de mim uma resposta clara quanto àquilo que devo enfatizar na busca do Reino. E é aqui que cada igreja define as suas ênfases. É aqui que essa definição se torna mais complexa, pois ela é consolidada  segundo a relevância que a igreja dá cada uma das pessoas da Trindade.

Os católicos romanos enfatizam a figura do Pai, do progenitor. Muito embora o destaque se dê através da mãe, por trás dessa devoção há um sentido de venerar alguém que vem antes, que propiciou e que de alguma forma tornou possível o ministério de Jesus. Para os evangélicos pentecostais, e agora também os neopentecostais, a evidência recai sobre a terceira pessoa da Trindade, o Espírito Santo, que veio depois. Eles entendem que por ser o continuador da obra de Cristo, é ele quem está mais presente, portanto, mais próximo e acessível. E finalmente existe o protestantismo tradicional, herdeiro da reforma, no qual estão inseridas as igrejas históricas, como Batista, Presbiteriana, Luterana, mais recentemente a Metodista. Estas não escondem a sua predileção pela pessoa do Filho.
Qualquer visão menos informada diria que estas são três igrejas distintas, e que não há qualquer possibilidade de convergência entre elas. O que na prática não foge muito à realidade. Diante desse distanciamento denominacional, qual é o nosso papel como cristãos? Acirrar mais ainda esta disputa de entre as denominações? Exaltar cada um a sua denominação acima de todas as outras? Abominar qualquer prática ou manifestação que não esteja de acordo com o nosso manual de fé? Alguém poderia acrescentar mais uns trinta itens a essa lista. Mas é a esse fim que o Plano de Salvação nos induz? É para isso que eu fomos chamados?

A força que nos une: católicos, evangélicos e protestantes, sempre será muito maior e infinitamente mais relevante do que as forças que concorrem para separá-los. Por isso é que diante de nós se apresentam dois caminhos: o que leva a exaltação de uma denominação em detrimento das outras, e, consequentemente a nossa promoção pessoal, o nosso status acima de todos os demais cristão; e o caminho que nos leva a colocar a denominação, e a própria igreja local debaixo e a serviço de um apelo à unidade da qual o Reino de Deus hoje se faz extremamente carente.

Neste sentido temos dois exemplos pelos quais deveríamos ser constantemente avaliado. O primeiro, que diz respeito ao valor que se deve dar à denominação. Este exemplo foi dado por João Wesley, mas caberia na boca de qualquer reformador. Calvino ou Lutero poderiam muito bem dizê-lo, se é que de alguma forma não disseram. No auge do movimento metodista, Wesley diz simplesmente: eu seria a pessoa mais feliz do mundo se o nome metodista nunca mais fosse pronunciado na face da Terra. Essa era a importância que Wesley dava ao movimento metodista no contexto denominacional. O segundo exemplo a ser seguido, diz respeito à promoção pessoal, e foi dado por outro João, o Batista. Quando o seu ministério atingia o apogeu, e o grande número dos seus seguidores colocava em alerta o Império Romano, ele fez a seguinte declaração: importa que ele (Jesus) cresça e que eu diminua.

Aqui se responde a segunda parte da pergunta: o discípulo de Jesus é aquele que coloca sua fé, a sua igreja e a si mesmo a serviço de uma igreja maior, uma igreja tão boa, tão grande e tão abrangente que Jesus ousou chamar reino, o Reino de Deus. Mas é fato que igreja alguma, seja de que denominação for, está isolada no mundo. E qualquer uma delas está longe de ser parâmetro entre o espiritual e o profano. Segundo o próprio Jesus Cristo, a vocação da igreja é congregar, daí a raiz do seu nome, eclesia. Sua função é investir contra as portas do inferno, o quartel general das forças que dividem os homens. 

Mas para que a igreja exerça sua vocação plena nesta geração ela precisa atuar eficazmente em uma sociedade em que imperam dois tipos de ética. A ética dos ativistas sociais e a ética da moral pessoal. E esta é uma área de ação bastante complexa, porque ao mesmo tempo que precisa estar ao lado dos que combatem os problemas globais, a igreja tem que alertar o indivíduo quanto ao aperfeiçoamento como pessoa, através do que chamamos de disciplina pessoal. São faces opostas da mesma moeda. A igreja precisa posicionar-se entre ativistas que possuem um elevado censo de responsabilidade social, mas levam vidas que em nada valorizam a conduta moral, e aqueles que buscam a perfeição moral, a honestidade, o caráter elevado, a temperança, mas que não tem outra preocupação a não ser a sua excelência como cristão.

É muito difícil equilibrar-se sobre esses dois pilares, por isso é que raramente encontramos alguém que seja minimamente sensível aos dois aspectos. Rigorosamente equilibrado entre eles, até hoje este mundo só conheceu um: Jesus, chamado Cristo. Somente ele conseguiu conciliar completamente a firmeza do caráter, o real sentido de justiça ao amor e serviço às pessoas. E é com ele que precisamos aprender a colocar os pés nesses dois caminhos. Precisamos aprender a ser igreja nas mais problemáticas áreas do social, como também nas tentadoras experiências na busca da perfeição moral. Aquilo que poderíamos chamar de equilíbrio perfeito entre piedade e misericórdia. Este equilíbrio aponta o verdadeiro caminho do Reino. E aqui se completa a resposta. O cristão ideal para os dias de hoje, é aquele que procura por todos os meios equilibrar-se entre o moral e o social.

Por escassos períodos da sua longa existência a igreja conseguiu ser realmente fiel a estes princípios. Justamente nos períodos em que ela atravessou a maior escassez de recursos, experimentou seu maior crescimento qualitativo. Foi justamente quando a igreja não tinha ouro nem prata, que ela pôde viver e compartilhar o que de mais precioso possuía: o Evangelho. O poder de Deus que efetivamente vence o mal, a opressão e a injustiça. 
Guardadas as proporções populacionais de suas épocas, a Igreja Primitiva dos séculos I e II foi, sem contestação, a mais expressiva e transformadora campanha evangelística de toda a história da igreja. Em menos de cinquenta anos, a fé que nascera numa obscura aldeia da Galileia, já tinha seguidores na família dos imperadores em Roma. A única explicação para isso, é que aqueles cristãos, nossos irmãos do passado, entenderam a única maneira de aceitar plenamente a mensagem do evangelho, é essa: ou o Reino é pleno, é para todos e abrange os mais intrincados aspectos da vida humana, ou esse reino não é o Reino de Deus.




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