Mitos sobre a oração

Homem velho orando de Nicolaes Maes (1634–1693) 
Desde as cavernas o homem expressa os seus desejos, suas necessidades e a sua adoração aos seus deuses usando uma forma de comunicação respeitosa e temerosa. O que chamamos de oração, alguns chamam de reza, outros dizem ser um mantra, não é somente a forma mais antiga de comunicação com o divino, também é comum a todas as religiões e seitas que existem e já existiram. Este balbuciar de palavras pode apresentar-se das mais variadas formas como: cantada, recitada, de improviso ou previamente escrita, não importa como, todas tem em comum a mesma finalidade: marcar presença diante de algo que considera ser-lhe superior.

Portanto, a oração tão necessária e tão utilizada no meio cristão não é uma invenção sua nem tampouco de seu exclusivo uso. Mas devemos considerar que a oração dirigida ao Deus Eterno e Verdadeiro tem implicações e métodos diferentes das orações às divindades pagãs. Não se pode estabelecer comunicação com o Deus Vivo em sua transcendência, utilizando-se dos mesmos recursos e práticas usuais na comunicação com entidades representadas por pedaços de madeira, pedra ou mesmo ouro.

Mas o que lamentavelmente se pode observar, é que a forma e a prática de oração que seria apropriada ao Deus Verdadeiro, são, em muitos casos, bem diferentes das orações que lhe são dirigidas hoje em dia. Não se trata de postular um tratado politicamente correto de como se deve orar, esta fórmula rígida nem mesmo Jesus, o Cristo, se propôs estabelecer. Mas, a exemplo do que ele fez, vamos meditar sobre algumas tendências e práticas que são costumeiramente aplicadas como corretas, mas que, em última análise, não correspondem àquilo que a Bíblia nos ensina sobre esta forma de comunicação. Trata-se sim de colocar em xeque alguns mitos sobre a oração que já se tornaram patentes no meio evangélico.

O primeiro mito a ser contestado nas orações do nosso cotidiano é justamente este já citado: Existe uma forma certa de orar? É muito comum ouvirmos que nossas orações somente serão atendidas, se mantivermos uma postura tão correta quanto digna. Jesus, em seu ministério, estabeleceu algumas regras claras sobre a oferta e sobre o jejum. De como a mão esquerda tomasse conhecimento sobre a atitude da direita, sobre não trombetear nas praças públicas, sobre a importância da nossa relação com as pessoas e sobre a aparência pessoal. Mas não fez tantas restrições quando tratou especificamente da oração, apenas recomendou fazê-la em secreto. No entender de Jesus, a oração válida não é aquela em que o orador está convicto do seu estado de excelência moral, mas sim quando tem a certeza de ser um pecador indigno, que não se atreve levantar a cabeça. No dizer de João Wesley: quando está convicto de que caminha a passos largos para o Inferno. Jesus deixou explícito também que a ortodoxia das palavras perfeitamente dispostas, fica, para Deus, em segundo plano, diante do apelo desesperado da alma que sequer sabe orar. Comentado a parábola do fariseu e do publicano Rubem Alves disse: O fariseu ajoelhou-se diante do Deus Verdadeiro e orou a um ídolo. O publicano ajoelhou-se diante de um ídolo e orou ao Deus Verdadeiro.

O segundo mito a ser considerado é este: a oração precisa ser absolutamente sincera? Quanto a este mito devo confessar que até recentemente eu era devoto. A espessa nuvem de conceitos preconcebidos que me envolvia foi completamente dissipada ao ler a meditação do No Cenáculo de 25 de janeiro de 2006. Ed Ridgley, do Alabama, atravessava momentos de profunda mágoa pelo abandono e pela traição que ocasionaram o seu divórcio. No entanto, a sua consciência de bom cristão dizia que deveria perdoar sua ex-esposa e orar por ela. Era complicado, porque em sua tristeza, somente conseguia expressar-se com ódio orando irado com palavras proferidas entre dentes: eu a perdoo, ó Deus. Sempre que a sua situação lhe vinha à lembrança, insistia em continuar assim orando. Ed testemunha em seu relato que nada, nem livros de auto-ajuda, nem aconselhamentos, nem terapia o ajudavam a administrar a sua raiva. Somente a sua hostil e irada oração diária lhe trazia um pouco de conforto. Com o passar do tempo ele foi, aos poucos, destravando os dentes, relaxando e aprendendo a perdoar a sua ex-esposa. E não somente isso, ele pôde, desta forma, reconhecer a sua parcela de culpa na iminente separação, e ser perdoado por ela.

Esta exigência da oração sincera é muito opressora, porque não leva em conta os limites que a natureza humana tem para superar as grandes mágoas ou recuperar-se das maiores e mais terríveis perdas. Deus nos conhece muito bem. Ele sabe que não somos capazes de passar pelas grandes provações sem a perseverança que nos é trazida com o tempo. Ele sabe que precisamos dar tempo ao tempo para nos recompormos.

Finalmente o mito mais comum que campeia entre nós. É fato comum entre os palestrantes que versam sobre o tema da oração, a afirmação de que algumas orações não possuem o poder de ultrapassar o teto. E nisso eles estão absolutamente certos. O que eles se esquecem de dizer é que nenhuma, nem mesmo a mais bem elaborada e sincera oração, possui este poder. Falam como se oração, pela sua forma e estrutura, carregasse consigo algo que a tornasse auto-suficiente e potencialmente eficaz. Falam somo se o orador, por si só, pudesse revestir-se de dignidade moral e elevado dom espiritual para promover inevitavelmente o contato com Deus e por ele ser ouvido e assistido. Não é isso que nos ensina a parábola do Filho Pródigo. Se não tivesse um Pai amoroso, pronto a apressar-se em aceitar o filho de volta do outro lado, de nada adiantaria cair em si, arrepender-se amargamente, ajoelhar-se humildemente, elaborar um convincente discurso de regresso ou, como seu irmão mais velho, viver uma vida de retidão. Como dizia o rev. Garrison: Não fosse o incondicional amor do pai esta história terminaria em tragédia.
Falar de oração é falar do quanto ela é necessária e eficaz, de como Deus nos ouve com a atenção de um pai amoroso, de que por mais que estejamos felizes ou tristes devemos sempre pedir como autênticos discípulos de Jesus: ensina-nos a orar, pois a oração é como a fé: quando ela parece ser mais impossível de ser praticada, é justamente quando mais precisamos dela.

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