Aspectos da salvação

Batismo de Agostinho de Gozzoli
Desde que Paulo sistematizou a doutrina da salvação pela graça, várias outras doutrinas se seguiram a ela, como exemplo maior, a doutrina da predestinação. A contestação desta doutrina como usualmente é feita, não faz uma avaliação do quanto ela é complexa. Para efeito de um estudo breve, podemos classificá-la sob três formas distintas: absoluta, restrita e condicional.Muito embora estes termos utilizados não sejam acadêmicos, expressam bem a ideia que se quer ter de cada uma das interpretações do aspecto predestinista da salvação.

Absoluta, é a doutrina de João Calvino, que coloca a irresistível graça de Deus e a impossibilidade de se naufragar na fé, como o parâmetros válido para a salvação de alguns escolhidos. Deus salva quem quer e quem ele quer salvar estará salvo, restando aos demais a perdição eterna.
A restrita, de Jacó Armínio, que coloca sobre o homem a responsabilidade da salvação pelo uso do seu livre arbítrio. E a condicional em que ambos os aspectos são igualmente válidos, sem que um se sobreponha sobre o outro. A salvação é uma conseqüência da vontade de Deus, mas depende da aceitação humana.
Parte divina na salvação
Todas as grandes doutrinas da salvação estão baseadas nas palavras de Jesus narradas por João no capítulo 3, verso 16 do seu evangelho que diz: Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Deste versículo extraem-se os principais elementos da salvação propriamente dita:
1 – Amor voluntário – Deus amou o mundo sem que este tivesse qualquer mérito.
2 – Amor universal – Deus amou ao mundo todo e não apenas parte dele.
3 – Amor imensurável – não pode ser medido ou comparado senão consigo mesmo – de tal maneira.
4 – Amor comprovado – deu seu filho unigênito.
5 – Amor condicional – para todo aquele que nele crê.
6 – Amor sem fim – tenha a vida eterna.
Sobre salvação, entendemos que é uma graça que Deus concede ao homem, que não a merece. É um ato da misericórdia de que Deus, que não dá ao homem aquilo que ele de fato merece. Embora revolucionária e única no âmbito das religiões existentes, a salvação pela graça não aboliu as exigências do pagamento de um resgate, ou seja, o derramamento de sangue pela remissão de pecados. Como diz a Bíblia, apesar da inflação, o salário do pecado continua o mesmo, a morte. A expiação de Cristo seguiu rigorosamente as exigências prescritas no Kippur. Na antiga expiação hebraica, o sangue do primeiro bode era jogado sobre o propiciatório, onde estava guardada a lei, para que Deus não olhasse para o descumprimento desta. Kippur era a cobertura com um preço, o pagamento de um resgate que fosse maior que o pecado praticado. O segundo bode, o emissário, era enviado para o deserto para que o pecado fosse esquecido e nunca mais lembrado. No sacrifício, Cristo cobre todos os pecados de todos os homens em todos os tempos como o seu próprio sangue e em seguida vai ao Hades, um lugar de esquecimento mais eficaz que o deserto, para que os nossos pecados sejam definitivamente esquecidos.
São estes os elementos básicos da salvação:
1 – Expiação – sacrifício no lugar de outrem.
2 – Eficácia – indistintamente todos os pecados foram cobertos.
3 – Reconciliação – agora possível pela anulação do pecado.
4 – Redenção – um resgate maior foi pago quitando a dívida em juízo.
5 – Libertação – livres do poder e da ação do pecado.
6 – Livramento – não há mais necessidade de se descer ao Hades.
A parte humana na salvação
As únicas respostas que o home pode dar a Deus na salvação são arrependimento e fé, que coincidentemente também são as condições essenciais para a conversão. Entendemos por arrependimento o abandono do pecado, e entendemos ser fé o instrumento pelo qual recebemos a salvação. Diante do que se observa hoje na liturgia de culto, principalmente nas igrejas que aderiram ao movimento neo-pentecostal, podemos formular as seguintes perguntas:
Existe fé sem arrependimento?
Acreditamos não ser possível posto que, a condição para a volta é a consciência do afastamento pelo pecado e a necessidade de se voltar para Deus.
Existe arrependimento sem fé? 
Sem ter para quem se voltar, o arrependimento se torna inútil, pois não é somente voltar-se e sim voltar-se para quem.
Arrependimento
Elemento primordial para a entrada no Reino, é o tema inicial de toda a pregação profética e neo-testamentária. Qualquer mudança de vida começa pelo arrependimento, que provoca a metanoia, ou mudança de mente, que é composta dos seguintes elementos:
Elemento intelectual – mudar de idéia com relação ao pecado
Elemento emocional – mudança de sentimento – ter nojo do pecado.
Elemento prático – mudança de hábitos e desejos.
Algumas correntes teológicas tipificam o arrependimento em quatro personagens bíblicos distintos:
1 – Caim arrependeu-se, mas não buscou o perdão de Deus.
2 – Faraó arrependeu-se, mas não abandonou o mal.
3 – Judas, arrependeu-se, mas não se voltou para Deus
4 – Zaqueu, arrependeu-se transformando a sua vida e a dos demais à sua volta.
A fé é condição para a salvação nos dois Testamentos. Ao mesmo tempo em que somos salvos pela fé, somos enriquecidos pelo Espírito Santo, santificados, guardados e curados. A fé é uma via de dois sentidos. Em um sentido ela é operada pelo Espírito santo, e em outro é uma reação humana. A fé é a combinação perfeita do intelecto com a vontade. Pelo intelecto se crê pela vontade se aceita a fé como diretriz de uma nova vida. A fé meramente intelectual não é suficiente, porque se pode muito bem entender e aceitar o sacrifício de Cristo, sem entregar-se a ele. O aspecto intelectual da fé nos serve para discernimento, para que não tenhamos uma fé cega e para que sejamos libertos da superstição e do medo. Já o aspecto emocional, é a dedicação da própria vida que nos faz sensíveis à indiferença causada pelo pecado.

Fé para Wesley
Wesley, para efeitos doutrinários, classificou a fé em quatro grupos distintos:
1 – a fé do pagão – A existência e os atributos de Deus, o estado futuro de recompensa ou punição, e a natureza obrigatória da verdade moral, pois essas coisas se constituem na crença de um pagão.
2 – a fé do diabo – Ela se distingue por ser meramente especulativa e racional, um frio e morto assentimento, um elenco de idéias na cabeça. Mais elevada que a fé dos pagãos, porque os demônios crêem e tremem, mas ainda ineficaz.
3 – a fé que os apóstolos tinham quando Cristo estava ainda no mundo – Embora crer a ponto de “deixar tudo e segui-lo” enquanto tivessem o poder de operar milagres, “a curar toda a espécie de doenças e enfermidades”, [...] Ele lhes diz que “não podiam expelir um demônio por causa da sua incredulidade”. Mais tarde, supondo já terem uma medida da fé, eles lhe pediram: “aumenta a nossa fé”. No entanto, ele lhe diz claramente que não possuíam nada dessa fé, “nem fé como a de um grão de mostarda.”
4 – A fé pela qual somos salvos A fé cristã [...] é antes uma plena confiança no sangue de Cristo, uma confiança nos méritos de sua vida, morte e ressurreição, um descansar nele como nossa propiciação e nossa vida, como dado por nós e vivendo em nós. É uma segura confiança que alguém tem em Deus e que, através dos méritos de Cristo, seus pecados estão perdoados, e ele está reconciliado ao favor de Deus e, como conseqüência, uma aproximação dele e um apego a ele, como nossa “sabedoria, justiça, santificação redenção” ou, numa palavra, nossa salvação.”
Conclusão
O que se pode entender por salvação, não algo que se resuma ao exclusivamente ao futuro, como um prêmio a ser garantido antecipadamente para proveito posterior. Nem exclusivamente ao presente, negligenciando o seu aspecto eterno do amor de Deus. A salvação, embora seja aqui e agora é algo que se estende tanto na verticalidade do tempo, quanto na horizontalidade do espaço. Tanto na visão histórica, quanto na vida prática. Não há mais lugar para se pensar em uma salvação pessoal e restrita. A antiga preocupação com a salvação individual tem que dar passagem à urgência de Deus em transformar o mundo, no dizer de Wesley, nada fazer senão salvar almas.
Embora não vivamos na rudimentar tecnologia dos tempos bíblicos, os anseios e necessidades dos homens e mulheres de hoje em nada diferem do que os nossos ancestrais mais remotos vivenciaram. Ainda choramos como Davi a perda de um filho, nos angustiamos como Jeremias pelo destino de nossa nação e ficamos perplexos como Amós pela irresponsabilidade dos governantes. Mas este é o mundo que Deus ama e pelo qual se ofereceu em sacrifício. E para que a vontade de Deus seja feita, necessitamos mais de pessoas arrependidas como Zaqueu, do que de apóstolos ungidos. Carecemos mais de homens de fé como o centurião, do que exorcistas e curandeiros. Necessitamos mais do humilde pregador, do que do eloquente orador. Precisamos mais de fé do que de poder. Na realidade, precisamos exercitar mais a nossa fé do que tentar aumentá-la, posto que se a tivéssemos do tamanho de um grão de mostarda, removeríamos definitivamente montanhas de problemas.

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