Tenham o cuidado

Sermão do Monte, autor não identificado
Tenham o cuidado de não praticarem os seus deveres religiosos em público a fim de serem vistos pelos outros. Se vocês agirem assim, não receberão nenhuma recompensa do Pai de vocês, que está no céu. Mateus 6.1-10

Texto baseado em sermão do rev. Garrison.

Na Bíblia a graça de Deus é incondicional, arbitrária, universal, indispensável e radical. A graça de Deus é incondicional como na Parábola do Filho Pródigo; é universal como a aliança em Gn 12.7 para a cura das nações; é radical quando ela atinge o cerne da alienação humana, quer os homens queiram quer não. Esta é a percepção que a comunidade cristã tem tido dificuldade de sustentar através da História. Os judeus levaram mil anos para perdê-la; os primeiros cristãos aproximadamente quinhentos; os reformadores duzentos.

Nota-se que é uma tendência natural e compulsiva de tomar nas próprias mãos o controle da justificação. Isso acontece porque é extremamente assustador aceitar a graça gratuita de Deus, e para as pessoas que se reconhecem como filhos maus parece algo inacreditável. Realmente nós temos muita dificuldade em perceber a ação da graça de Deus, Isso existe porque, como já foi dito: temos uma tendência natural e compulsiva de tomar nas próprias mãos o controle da nossa justificação. Nós queremos fazer algo para termos a certeza de que Deus nos aceita. Nós queremos fazer algo para nos aliviar de nossa culpa. Nós tentamos agir de tal modo que possa parecer que vencemos o mal e a tentação pelas nossas próprias forças o que nós merecemos o que recebemos.

Nós, os protestantes, levamos bem uns duzentos anos para perder a nossa percepção da graça de Deus. Mas vocês podem perguntar: então qual a nossa justificação própria? O que nós queremos ter em nossas mãos para garantir a nossa aceitação por Deus? Para nós protestantes é uma resposta bem fácil: é ser bom; é ser reto. Para outros que se aproximam da filosofia espiritualista é fazer caridade. Eu não estou dizendo para deixar de ser bom. É para ser bom mesmo. Mas ser bom virou o nosso pietismo pessoal; é a nossa garantia para chegar a Deus; é nossa pureza individual que garante que Deus vai nos salvar. Eu acredito que a nossa percepção da graça de Deus desapareceu faz uns duzentos anos do meio evangélico.

O que nós temos em nosso meio, que torna até difícil qualquer outra coisa entrar, é uma mentalidade moralista que vem do nosso desejo de ser bom e ser reto. Foi perguntado a uma pessoa o que é religião e ela respondeu: religião é aquilo que não se pode fazer, e ela está certa. Acredito que a maioria de nós lê a Bíblia com este espírito. Lemos a Bíblia como se ela fosse um código moral coberta de autoridade sagrada. Como se fosse uma coletânea de proibição da qual a nossa obediência nos livraria de toda culpa. Mas que esperança mais falsa é essa! Ninguém jamais observou todas as suas proibições. Ninguém jamais obteve a salvação obedecendo a um código.

No Sermão do Monte, do qual um trecho foi o nosso texto bíblico de hoje, Jesus está nos dizendo que nós ficamos livres de culpa se obedecermos às suas ordens, mas o propósito do Sermão do Monte é justamente o oposto. Parece que foi feito para assustar a gente, porque é uma palavra devastadora de fato, pois condena como homicida a pessoa que não matou ninguém. Todo o sermão do monte é revolucionário, porque condena de adultério a pessoa que não adulterou. O Sermão do Monte é uma palavra perturbadora que condena de hipocrisia a pessoa reconhecida por sua piedade. Então o Sermão do Monte é exatamente o oposto de um código moral. Jesus está nos dizendo que sempre falta algo em nossa retidão. Por mais alto que seja o nível de retidão que a pessoa conseguir, sempre faltará algo.

Ninguém pode obedecer tudo. Ninguém vai conseguir limpar sua culpa por uma conduta perfeita. A resposta, então, não está dentro de nós. A resposta não está no que devo fazer para aliviar a culpa ou para ficar certo com Deus e ganhar a salvação no céu. Melhor, a resposta vem de Deus e ele nos perdoa quando nós confessamos a nossa culpa em vez de nos justificarmos a nós mesmos pelo que fazemos. (continua)

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