Quem fez a vontade do Pai?

Os dois filhos, Paul Gauguin
Para muitos, inclusive adeptos de certas religiões, é uma prática comum dividir pessoas, fatos e circunstâncias em um simples e único golpe de facão. Tudo o que fica à direita e bom, verdadeiro, justo e santo, porém, tudo aquilo que permaneceu à esquerda é pecado, mentira, injustiça e diabólico. Não são poucas as charges presentes nas mídias que nos lembram frequentemente deste fato.

Isto tem se tornado um prato cheio para os críticos, agnósticos e ateus afrontarem a fé cristã. Contudo, diante do que cenário que vejo atualmente, não posso e nem tenho como lhes tirar a razão, uma vez que dividir as pessoas entre ungidas e não ungidas, pecadores e retos, e identificar as atitudes entre as que são de Deus e as que não são de Deus tornou-se uma especialidade muito valorizada em nosso meio. Pelo menos é o que parece prazeroso aos membros e pregadores de muitos dos nossos cultos dominicais.

Mas não esse o modo como o evangelho se nos apresenta, pelo contrário. Várias são as passagens que não nos inibe fazer juízos precipitados ou baseados em análises circunstanciais. O julgamento público da mulher adúltera é um caso clássico desse tipo de erro julgamento, a despeito do grave delito em que a mulher foi flagrada. É nesta situação que não apresenta qualquer defesa aparente que Jesus não somente absolve a mulher, como devolve a culpa a cada um dos seus acusadores. Quem de nós não traiu? Quem de nós já não pensou em trocar um amor capenga por outro caolho? Quem de nós já não andou atrás de amor em fontes enganosas e caminhos duvidosos?

Mas é a leitura indicada pelo Calendário Litúrgico de hoje que traduz mais fielmente onde se estabelece mais propriamente o nosso erro de julgamento. Mateus 21 conta a parábola dos dois filhos que receberam ordens diretas de seu pai: Meu filho, vai trabalhar hoje na vinha. Respondeu ele: - Não quero. Mas, em seguida, tocado de arrependimento, foi. Dirigindo-se depois ao outro, disse-lhe a mesma coisa. O filho respondeu: - Sim, pai! Mas não foi. Uma parábola que é seguida da pergunta definitiva e crucial das nossas vidas: Quem fez a vontade do Pai?

Com essa simples pergunta Jesus depõe a ditadura do fariseu, destrona a oligarquia dos doutores da lei, e descaracteriza de uma vez para sempre a superioridade sacerdotal. Para ele o que interessava como exemplo de fé viva e verdadeira era uma coisa só: Quem fez a vontade do Pai?

A impressão que se tem é que os erros de julgamento da nossa política governamental se instalaram confortavelmente em nossas igrejas. Um homem que pesca três peixinhos em uma reserva ecológica é condenado, uma empresa que destrói um rio e o litoral de um estado, recebe financiamento de bancos estatais. Uma mulher grávida que rouba duas peças de roupa para o seu filho prestes a nascer, teve que dar à luz ao bebê na cela de uma delegacia. Aqueles que roubam milhões dos programas sociais, da saúde e da educação são candidatos a cargos mais elevados.

Eu muito me engano ou a igreja ficando assim? Aquele cantor afinado, de vida duvidosa, mas que repete efusivamente meia dúzia de refrãos apelativos, este sim, está revestido pelo Espírito Santo. Mas o que se empenha em uma cruzada solitária em expulsar o mal do mundo, porque não é em nada parecido conosco, está condenado ao mármore do inferno.

Onde é que o evangelho foi parar? Onde está a vontade do Pai em tudo isso? Qual é o verdadeiro filho, aquele que disse não, e voltou atrás, mesmo que ninguém tomasse conhecimento, ou aquele que jogou pra galera, disse que ia, mas seu propósito inicial era mesmo iludir e mentir?

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