Ele já veio

Vinho novo, Duccio de Buoninsegna
No entanto, o que lhes escrevo é um mandamento novo, o qual é verdadeiro nele e em vocês, pois as trevas estão se dissipando e já brilha a verdadeira luz. I João 2.8

Ainda que sob a ameaça de um trágico fim eminente, e que a profecia de Jesus que haveria choro e o ranger de dentes estava às portas da cidade, não se encontra nos escritos neo-testamentários um clamor, em Israel sitiada, semelhante ao que presenciamos hoje nas igrejas pela volta de Cristo.

Não sei se estou misturando as notícias, mas me foi informado que pela pregação de um único homem, em Tel-aviv, mil judeus se converteram simultaneamente ao Cristianismo, e quase que simultaneamente também, estes mesmos judeus clamaram a Deus para que apressasse a vinda do Messias.

Que evangelho é esse que está sendo pregado, que ao invés de apontar para o que Jesus já fez e anunciar que tudo está consumado, insiste em fundamentar a sua mensagem naquilo que, segundo dúbias interpretações, ele ainda fará?

Meu velho pai dizia que não queria ir para o céu anunciado pelos seus colegas pastores. Um céu para o qual Jesus subiu pedindo o perdão de Deus para aqueles que o crucificaram e o mataram, e do qual voltaria tempos depois punindo e castigando aqueles que não conseguiram permanecer fiéis às suas palavras, não se pareceria em nada com as promessas maravilhosas que jamais penetraram em algum coração humano.

Contudo, esse ainda não é o maior mal, pois se analisarmos friamente o modelo de pregação que enfatiza a segunda vinda de Cristo, vamos perceber que não há nada de inocente ou de ingênuo por trás dessas mensagens. Primeiramente ela dá pouquíssima importância ao arrependimento, pois se assim fosse, teríamos mil judeus tomando de imediato uma posição contrária às guerras no Oriente Médio, mil judeus na porta do parlamento israelense pedindo a devolução das terras palestinas, em vez de mil judeus preocupados com a sua salvação pessoal. Está difícil encontrar nos nossos cultos algum momento em que o povo de Deus seja conclamado a orar silenciosamente, refletindo acerca do seu pecado.

Esta primeira falha nos leva a cometer sem delongas ou prescrições uma segunda falha mais perniciosa ainda. Sem arrependimento não pode haver reparação do mal. Esta mensagem de novo nascimento apaga não somente às minhas dívidas para com Deus, mas parece que cancela também as dívidas para com o próximo. O que houve exatamente com o “vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão”?

Para não me estender muito, vou direto ao ponto. Esta mensagem é de um imediatismo tão barato, que não tem qualquer poder de transformação ou de simples influência sobre a essência maligna do ser humano. É exatamente por causa dela que hoje temos evangélicos entre traficantes, cristãos entre sequestradores, pastores e membros ilustres entre os mais vis corruptos do nosso executivo, legislativo e judiciário. Ou seja, como dizia o Bezerra da Silva: não fica um, meu irmão.

Há, se a mensagem fosse: ele já veio e agora se vire, porque é com você. Garanto que as igrejas não iam estar tão cheias. Garanto que os artistas gospel não teriam tanta evidência. Garanto que o número de templos seria bem menor. Garanto que Eduardo Cunha não seria eleito com o voto evangélico. Mas tem uma coisa eu não posso garantir: de olhos fitos no que Jesus já fez, a magnitude do que ela ainda fará.

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