Aproxima-se e ressuscita

A ceia de Emaús, Pedro de Orrente
Aconteceu que, enquanto conversavam e discutiam, o próprio Jesus se aproximou e ia com eles... E, na mesma hora, levantando-se, voltaram para Jerusalém, onde acharam reunidos os onze e outros com eles. Lucas 24.15 e 33

Esses dois verbos aparecem no texto para fazer toda a diferença no relato de Lucas, porque, por mais simples e diretos que possam parecer, eles possuem um significado que vai muito além do que está sendo apresentado. Um significado que evoca situações que Jesus viveu com seus discípulos no seu ministério terreno de altíssimo grau de intensidade.

Uma abordagem assim, tão incomum, não é encontrada senão em literaturas que exigem total atenção e comprometimento do leitor, visto que não visam mostrar apenas um relato imparcial do acontecimento, mas sim fazer com que se viva com intensidade e verdade uma experiência que funcionou tão gratificantemente no passado, e que seria de vital importância que também a experimentássemos hoje.

Quando Lucas diz que Jesus se aproximou dos dois discípulos de Emaús, ele usa o mesmo verbo que empregou na narrativa da parábola do Bom Samaritano. Ou seja, não foi apenas uma aproximação de corpos, mas algo que fez nascer uma total interação entre as pessoas envolvidas. Há de se observar também que o verbo traduz mais do que um encontro casual, pois é uma aproximação que se torna de vital importância para aquele que estava se sentido sozinho, perdido e desconsolado na sua caminhada.

Talvez a linguagem futebolística ou o futibolês, guardadas as devidas proporções, seja o parâmetro mais viável de comparação. Quando o treinador manda o jogador chegar junto, está querendo dizer para ele definir de vez a jogada. É nesse sentido que eu digo que o termo empregado pelos treinadores expressa melhor a força que tem o verbo aproximar tem no texto, e não, logicamente, na truculência que está subliminarmente sendo proposta. Tanto Jesus quanto o samaritano nos mostram um tipo de aproximação cuja condição única é mudar definitivamente a sorte daqueles que lhes são próximos.

E o verbo levantar, então, que tem mais contundência ainda, pois é o mesmo verbo utilizado por João quando narra Jesus realizando o milagre da ressurreição de Lázaro. Então, levantar, para Lucas, não é somente o simples ato de ficar de pé. Traz consigo toda uma conotação do significado de sair da letargia para a ação, do medo para o desafio, da acomodação para a ação, da morte para a vida. O milagre se repete, mas agora não mais obediente a um chamado, mas em resposta a uma atitude de Jesus que reafirma a sua própria ressurreição.

Da mesma forma que Jesus manda que se retirem as amarras de Lázaro ressuscitado e que o deixem ir, ele se empenha na caminhada de doze quilômetros que empreende com os discípulos a retirar p lençol de séculos de tradição para fazer com que eles entendam o que as Escrituras realmente pretendem. Na narrativa de Lucas, porém, não se trata exatamente de deixá-los ir, mas de fazê-los esquecer do cansaço e vencer o desânimo e voltar sobre as próprias pegadas novamente para o confronto em Jerusalém.

Impressionante como a Bíblia nos fala nas entrelinhas, sem apelas para as tendenciosas mensagens subliminares. Na Bíblia não encontramos as famosas letrinhas miúdas dos contratos, contudo, se quisermos penetrar no cerne da sua mensagem, precisaremos enxergar além da letra, pois como registra o escritor da Carta aos Hebreus no capítulo 4: Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração. 

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