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| A pesca maravilhosa, Raffaello em 1515 |
Simão Pedro precisava entrar em contato com os seus sentimentos. Sentado à beira da fogueira à margem do mar da Galileia, não estava participando, como os outros, da alegria de ter Jesus de novo entre eles. Os outros discípulos estavam rindo, brincando, comendo e bebendo. Provavelmente também relembrando os bons momentos que tiveram com o seu Mestre. Mas não era desse jeito com Pedro. Ele mal podia olhar Jesus nos olhos. Uma dor profunda bloqueava a sua alegria. Uma depressão mental que vinha crescendo há semanas, e agora estava pronta para derrubá-lo de vez. Qual era a causa? Esgotamento físico, medo de ser preso, incerteza quanto ao futuro, ou a memória vergonhosa do que ele fez naquela noite em que Jesus foi preso e torturado?
Pedro não podia lidar com o fato da sua negação covarde, e como poderia? Como ele iria viver com o que ele fez? Ele tinha que esquecer, ele tinha que bloquear, mas seus esforços eram em vão. Ele jamais iria apagar aquilo da sua mente. Aquele lugar não o deixaria esquecer. Foi lá que fez a melhor pesca da sua vida, foi lá que recebeu o glorioso chamado para acompanhar Jesus, foi lá que deixou tudo para trás e abraçou a verdade do Reino. Lembrou-se também de quando foi o primeiro a identificar Jesus como o Filho de Deus, e, por isso, recebeu as chaves do céu. Pedro logicamente se lembrou também do juramento que fez na última ceia de jamais negar o Mestre. Realmente ele cumpriu com o que disse, não negou Jesus uma vez, o negou três vezes. Não teria sido por isso que ele tentou voltar à sua vida antiga? Ele já sabia que Jesus estava vivo quando isso aconteceu. O problema é que ele não se sentia mais digno de segui-lo, por isso voltou para a Galileia. Voltou para tentar se esquecer de Jesus, mas Jesus não se esqueceu dele. Voltou ao lugar que o tinha encontrado para chamá-lo de novo.
Jesus foi bastante amistoso quando saldou os discípulos, mas Pedro não podia responder porque era um prisioneiro da sua mente perturbada. Havia uma distância entre eles, e essa distância estava no coração não perdoado de Pedro. Ela se manifestou mais claramente no silêncio que se fez após a refeição. Mas Jesus quebrou o silêncio, eliminou a distância e perguntou: Você ainda me ama mais do que estes outros? Eu imagino o quanto essas palavras devem tem dilacerado o já ferido coração de Pedro. Elas eram a reedição do seu juramento na ceia quando disse: Os outros podem abandoná-lo, mas eu não. Jesus rememorando o que ele havia dito, pergunta-lhe: Você ainda me ama desse jeito? Esse foi o tratamento de choque que Jesus usou para quebrar a barreira de remorso que bloqueava o relacionamento. Nada poderia ter tocado na ferida aberta de Pedro mais do que esta pergunta: Você ainda me ama desse jeito? Você ainda me ama mais do que os outros?
Pedro estava sofrendo demais para responder com palavras
simples. Ele sabia como ninguém o que era ser indigno de ser amado por Jesus. Foi
aí que ele teve um lampejo: Quem sabe uma outra abordagem? Se ele não pode mais
me amar, pelo menos como amigo não poderia dar certo? Por isso ele respondeu: Tu sabes que eu sou teu amigo. Novamente
o silêncio se fez presente. Mas Jesus volta à carga: Tu me amas realmente? Aí piorou tudo. Amar mais do que alguém que
não ama muito é fácil, mas amar de verdade é bem mais complicado. O que Jesus
está tentando fazer com ele? Desta vez a pergunta mexeu com emoções ainda mais
profundas. Isso trouxe à tona uma emoção ainda mais forte do que a amizade, e
fez com que Pedro respondesse com mais confiança: Tu sabes que eu sou teu amigo.
Como nas duas vezes anteriores, a pergunta de Jesus era
sobre amor, mas Pedro evitou a todo custo essa palavra respondendo sobre a
amizade. Ele não podia admitir a palavra amor no relacionamento, e o que ele
tinha de melhor a oferecer era a amizade. O grego permite esse recurso. Há pelo
menos três palavras que são traduzidas por amor. Jesus, então, muda o sentido
da terceira pergunta: Pedro, tu és mesmo
meu amigo? É ai que Pedro apela para
aquele feeling que ele sabia que era
forte em Jesus: Tu sabes todas as coisas!
Tu sabes que eu te amo!
Isso quebrou todas as barreiras, aniquilou todos os
remorsos, anulou as fronteiras. Lágrimas caíram de seus olhos. Ele soluçava
incontrolavelmente. Jesus havia finalmente rompido o selo de autocondenação que
lacrava o seu coração. Finalmente ele podia levantar seus olhos e encarar o seu
Senhor. Amor e perdão fluíram onde antes só havia culpa e ressentimento. Jesus
agora sabia que podia confiar naquele coração, pois o havia conquistado para
sempre, então diz: Apascenta a minhas
ovelhas.
Este texto é um dos mais traumáticos e ao mesmo tempo um dos
mais ternos da Bíblia toda. Não conheço outro tão emocionante. É o drama da
reintegração de Simão Pedro. O que aconteceu àquele homem precisa acontecer a
cada um de nós. Este é o evangelho em miniatura. Revela a fonte de poder, de
amor e de gozo na vida cristã. Revela o quanto Jesus ressurreto deseja nos
libertar das culpas e das frustrações que acumulamos ao longo das nossas vidas.
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