Tudo no presente, tudo um grande presente

A jovem pastora, H. W. Hudson (1841-1922)
Uma reflexão no Salmo 23 pelo rev. Edson Fernando de Almeida.
Frei Carlos Mesters, numa apresentação aos Salmos dizia: Há uma diferença entre as palavras “rezar” e “orar”. Posso rezar os Salmos e posso orá-los. “Rezar” vem de “recitar”: recito ou rezo orações que outros fizeram. “Orar” significa que a oração vem de dentro de mim mesmo. Milton de Nascimento tem uma música, cuja letra expressa o que quero dizer. Ele diz: Certas canções caem tão bem dentro de mim que perguntar carece: “Por que não fui eu que fiz?” Ou seja, posso chegar a rezar os salmos de tal maneira que eles expressem exatamente aquilo que eu estou sentindo no momento.


Ou como dizia Cassiano (século IV): Instruídos por aquilo que nós mesmos sentimos, já não percebemos o salmo como algo que só ouvimos, mas sim como algo que experimentamos e tocamos com nossas mãos; não como uma história estranha e inaudita, mas como algo que damos à luz desde o mais profundo do nosso coração, como se fossem sentimentos que formam parte do nosso próprio ser. Então, que elementos deste lindo salmo nos tocam tanto?  Que conteúdos desta verdadeira reza que não nos cansamos em repetir são capazes de evocar a nossa própria oração? Poderíamos dizer que uma das razões está em que neste Salmo aparecem algumas maravilhosas imagens de Javé. Destaquemos, pois, quatro delas:

Quando Javé é meu Pastor...

Não me falta provisão!
Ele é O Deus misericordioso, o Deus da Provisão, atento às nossas mais básicas necessidades: águas tranquilas, pastos verdejantes.  Água, comida...  Mas, a gente não precisa só de comida pra sobreviver, a gente precisa de alegria, de prazer pra viver. E essa necessidade fundamental, embora não contada na cesta básica da sobrevivência, aparece no Salmo: o refrigério para alma. Lutero, num lindo sermão que pregou sobre esse salmo, assim interpretou a palavra refrigério: napash significa recuperar-se e saciar-se. Lutero se lembra de uma expressão do seu povo para expressar tal refrigério: um bom gole ajuda o corpo e a alma, ou: sobre barriga cheia tem que estar cabeça alegre. E conclui o reformador, lembrando o que se dizia após uma refeição: Agora tá melhor! Ou seja, Javé é pastor não só das nossas necessidades espirituais, também o é das nossas necessidades biológicas, e mais ainda, nos acolhe e provê a nossa necessidade do prazer de viver, da alegria nas pequenas e grandes coisas. 

Não me falta condução.
Ele é o Deus Condutor, o grande arquétipo do caminho – Aquele que nos guia pelas veredas da justiça. O ser humano tem sede de necessidades biológicas, tem sede de necessidades estéticas: o prazer, a alegria, mas tem sede também de necessidades éticas: Guia-me pelas veredas da justiça. A justiça, a justa medida, a equanimidade, o desafio da conciliação de elementos aparentemente tão contraditórios como, a vida individual e coletiva e etc. Diz a Bíblia de Jerusalém: Guia-me por bons caminhos, por causa do seu nome.

Javé é este horizonte, este caminho, esta seta-senda que põe nossa vida em movimento: do isolamento à solidão, da hostilidade à hospitalidade, da ilusão à verdade.  Na resposta dada a Tomé Jesus se colocou neste lugar do Javé do salmista: Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Que bela metáfora, Deus se apresenta não como um lugar, como uma lei, mas como um caminho, como uma seta, como uma direção que põe nossa vida em movimento. Lembro-me de Raimon Pannikar quando dizia que Jesus não é para nós um ídolo, mas um ícone. Uma janela que abre outras janelas e põe nossa vida em movimento.

Não me falta consolação.
Ele é o Deus protetor/consolador: Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum: Tu estás comigo. Diz a Bíblia de Jerusalém: Tu estás junto a mim. E aqui aparece a maravilhosa imagem de Deus como aquele que nos dá um solo, que nos consola. O termo hebraico nahamaponta um cajado no qual podemos nos apoiar. Assim interpretou Lutero a presença consoladora de Javé: Não te vejo, não te sinto, mas te ouço! Deus como aquele que nos dá um chão (com-solus) de sentido para a nossa vida.   

Não me falta hospitalidade.
Por ultimo, Ele é o Deus hospitaleiro: Preparas uma mesa na presença dos meus adversários. Assim interpretou Lutero: Até poderíamos pensar: preparas-me armas e muro seguro, mas o texto diz: uma mesa. Com isso está anunciando o maravilhoso poder da Palavra. Nossa vitória consiste simplesmente em comer e beber, isto é, em tomar a Palavra e nela crer

Não por força nem por violência, mas pelo meu Espírito, mas pela minha palavra, diz o profeta Zacarias no capítulo 4. Diz a canção que cantamos: Palavra não foi feita para dividir ninguém, palavra é a ponte onde o amor vai e vem.

Preparas-me uma mesa! Unges-me a cabeça com óleo, a minha taça transborda! Mais uma vez, a interpretação de Lutero: Davi bem poderia ter dito: pensei que ele iria me colocar um elmo na cabeça, mas me passou óleo, como se eu estivesse a caminho de um baile! Como é possível que o Espírito Santo fale com tanta arrogância contra o diabo! No fundo, não te está escrito: tu me ungiste, mas: tu me besuntaste, isto é, tu me mergulhaste na Palavra, consolaste, ensinaste e fortaleceste. Tal unção é nosso armamento. E dirá ainda Lutero: Ah, o diabo vai ficar maluco, quando ouvir que fazemos pouco caso de sua raiva, pois estamos saindo para o baile.

O meu cálice transborda. O cálice sou eu. Estou cheio, estou provido, tenho um pastor. Estou bem!
Em outras palavras, quando Javé é nosso Pastor então nos sentimos tomados pela alegria de viver e aqui está a nossa força, a nossa mesa: um coração alegre. Lembram-se do provérbio bíblico? O coração alegre é como o bom remédio, mas o espírito triste seca os ossos.

Concluindo:
Assim termina o Salmo: Bondade e misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida. A Bíblia de Jerusalém diz: Felicidade e amor me seguirão todos os dias da minha vida. Sim, a felicidade é nossa maior arma, não a agressividade e violência; a hospitalidade, não a hostilidade; o amai-vos uns aos outros, não o armai-vos uns contra os outros. E o Salmo termina dizendo: E habitarei na casa do Senhor. A melhor tradução é a que diz: Minha morada é a casa de Javé por dias sem fim. O Salmo inicia: Javé é meu Pastor, nada me falta. E conclui: Minha morada é a casa de Javé.

Tudo no presente, tudo um grande presente! 

Rev. Edson Fernando de Almeida, pastor titular da Igreja Cristã de Ipanema, Rio, RJ. Doutor em Teologia, psicólogo, pós graduado em Filosofia Contemporânea, professor do Instituto Metodista Bennett, Instituto La Salle e Universidade Veiga de Almeida e escritor.

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