O que é ADORAÇÃO?

Visões de Ezequiel, Francisco Collantes (1599-1656)
Ezequiel diante da glória de Deus, Saulo ante a aparição de Cristo ressuscitado se veem atirados por terra como que aniquilados. A santidade e a grandeza de Deus tem algo de esmagador para a criatura, fazendo-a mergulhar no seu nada. Se é excepcional o homem defrontar-se com Deus numa experiência direta, é normal que no universo e durante a sua existência que ele reconheça a presença, a ação de Deus, sua glória e sua santidade. A adoração é ao mesmo tempo espontânea e consciente, imposta e desejada, da reação complexa do homem arroubado pela proximidade de Deus: consciência aguda de sua insignificância e de seu pecado, confusão silenciosa e veneração trêmula e reconhecida, homenagem jubilosa de todo o seu ser.

A adoração de fato invade todo o ser, essa reação de fé se traduz em gestos exteriores. Não é verdadeira a adoração sem que o corpo empolgado e consciente exprima a soberania do Criador sobre a criatura. Mas o pecado faz com que o homem fuja da presença de Deus e reduza a adoração às manifestações exteriores programadas e gestos copiados.

O gesto de adoração é basicamente a prostração, mas assume no culto a forma de consagração, através da iniciativa de entrega da criatura dividida entre o pânico e a fascinação. A prostração antes de ser um gesto espontâneo é mais uma atitude imposta pela força de um oponente mais poderoso. Para evitar ser forçado pela violência, o fraco prefere ir por si mesmo, inclinar-se diante do forte e clamar por sua benevolência. Todos os gestos do culto, e não somente a prostração, são gestos de oferecimento de tudo que o homem tem, para serviço de Deus e do próximo. A única forma de agradá-lo.

Somente Deus tem esse direito. A Bíblia proíbe textualmente qualquer gesto capaz de atribuir valor a um possível rival. Tudo está contido nas palavras de Jesus ao tentador: Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a ele prestarás culto.

Para escândalo dos judeus proclama-se que a adoração reservada ao Deus único é devida a Jesus crucificado, confessando-o como Senhor e Cristo. Ao seu nome deve se dobrar todo joelho no céu, na terra e nos infernos. Esse culto tem por objeto o Cristo ressuscitado e exaltado, que pela fé é reconhecido como Filho de Deus. A adoração a Jesus em nada fere a intransigência da adoração a Deus, mas recusa a dos anjos, dos apóstolos e dos líderes espirituais. Por declarar a sua adoração a um Deus feito homem, os cristãos são levados a desafiar abertamente o culto aos imperadores desse mundo, representados por João como bestas no seu Apocalipse.

Adorar em espírito e em verdade é a novidade da adoração cristã que não se limita à figura da Trindade que contempla, mas transforma a adoração simples em adoração perfeita, porque somente aqueles que nasceram do Espírito podem adorar deste jeito: em espírito e em verdade. Esta atitude não consiste de um procedimento puramente interior, sem gestos e sem formas. Mas provém de uma consagração do ser inteiro: espírito, alma e corpo. Os verdadeiros adoradores não precisam mais ir a Jerusalém nem a Gerezim, não precisam mais de uma religião nacional, porque do Senhor é a terra e a sua plenitude. Os cristãos são de Cristo, e Cristo de Deus. A adoração em espírito se faz no único templo agradável ao Pai, o corpo de Cristo ressuscitado. Os que nascem do espírito unem a sua adoração àquela única que o Pai tem complacência e repetem as palavras do Filho amado: Abba.

No céu não haverá templos, somente Deus e seu Cordeiro, mas nem por isso cessará a adoração. De dia e de noite os remidos pela sua graça renderão honras e glórias àquele que vive pelo século dos séculos.

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