O que é PAIXÃO? I

O lava-pés Ford Madox (1821-1893)
A narrativa da paixão forma nos evangelhos uma seção bem delineada. Embora cada evangelista tenha obtido o seu material por meios próprios, todos parecem contar com um documento básico que abrange os seguintes episódios: a conspiração dos sacerdotes, a traição de Judas, a última ceia, o relato da prisão, o processo diante dos sacerdotes, o julgamento de Pilatos, a crucificação e o sepultamento. Alguns outros elementos, tais como a unção em Betânia, o Getsêmani e o escárnio dos soldados, são elementos compilados da memória dos mentores de cada evangelista, pois, sem qualquer tentativa de conciliação, podemos vê-los sendo citados desde as mais antigas pregações apostólicas, nos mais antigos credos e nas mais antigas orações litúrgicas.

A narrativa de Marcos, pelo fato de ser a mais antiga, narra a fuga dos apóstolos e a agonia no jardim como cenas que mostram Jesus em extremo abandono e dependência. As narrativas mais recentes, como a de Lucas e João, já mostram um Jesus mais autônomo e mais senhor da situação, inclusive perdoando os seus algozes. Basta que comparemos o encontro dele com os soldados que o prenderam. Marcos também faz mais do que um relatório resumido dos principais acontecimentos da paixão, ele os insere na história da salvação, creditando aos fatos seu valor, tal como a antiga pregação cristã os entendeu: uma provação que Jesus havia superado vitoriosamente. Essa provação era apresentada como uma pedra de escândalo para todos aqueles que esperavam um Messias dotado de armas que destruiriam de vez os inimigos de Israel. A isso a pregação cristã respondia confrontando a maneira como os judeus haviam tratado Jesus com a intervenção de Deus que o ressuscitou do sepulcro mostrando a origem da sua força e provando a sua inocência, para fazê-lo sentar no lugar do justo sofredor preconizado por Isaías como verdadeiro Messias. Embora Marcos cite frequentemente a ignorância dos judeus, não disfarça a sua culpa, seguindo os moldes das pregações antigas.

Os evangelhos não falam de maneira explícita de um plano salvífico de Deus, e nem mesmo que este estivesse sido completado com a paixão de Cristo. Mas são eles que fornecem elementos para a base dessa doutrina. Frisam sempre que Jesus já sabia de antemão o que o esperava, que ele sofreu como um inocente justo e que se entregou voluntariamente as essas provações. Porém, deixam claro que a luta entre o bem e o mal, entre Deus e Satanás foi decidida de vez para sempre ali. Contudo, para os evangelistas, Jesus não morreu simplesmente como mais uma vítima da violência brutal e do abuso de poder dos seus adversários, havia por trás de todos esses acontecimentos o propósito salvífico de Deus. E é próprio quem Deus confirma o valor desta paixão e morte, fazendo daquele crucificado não apenas mais um morto que por uma ato de misericórdia retornou à vida, mas alguém que ressuscito em um corpo glorioso que jamais antes visto por qualquer ser humano.

A narrativa da paixão não tem por finalidade comover ou explicar, mas convencer e fortalecer a fé os fiéis que por seguirem a Cristo estão sendo perseguidos e mortos, mas também tem o propósito de refutar as objeções dos adversários. Por outro lado, o Jesus que padece na sua justiça é o modelo a ser imitado por aqueles que se dispõem a seguir os seus passos. Embora os evangelistas não avaliassem a questão do valor da morte de Jesus para a salvação universal, pois esta é uma doutrina iminentemente paulina, já encontraram na paixão de Cristo os elementos para a resposta do por quê do sofrimento expiatório. Mais importante ainda, é por esta paixão que Jesus se torna a luz do mundo e o seu redentor. (continua)

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