O que é FÉ? I

Abraão e os anjos, Rembrandt
A palavra traduzida por no Primeiro Testamento vem do hebraico ãman que significa ter ou sentir firmeza, e esta é a atitude que se deve ter perante Deus. Supõe um consentimento da inteligência, mas consiste, principalmente, no reconhecimento de Deus, em tudo o que ele é para o homem, pelo seu amor,
seu poder e suas exigências. Senhor, na angústia te buscaram; vindo sobre eles a tua correção, derramaram as suas orações. (Is 26.16) Neste Testamento, obediência e confiança estão no primeiro plano em tudo o que se refere a ter fé, e todas as atitudes contrárias significam negar, ou desprezar a Deus, ou ainda ser rebelde à sua Palavra. Todas as expressões de fé cantadas nos salmos, exaltada pelos sábios e pregada pelos profetas tem como referência Gênesis 15.6, que diz: Abraão creu no Senhor e isso lhe foi imputado como justiça. Abraão é considerado o pai da fé justamente porque acreditou sem hesitação nas promessas de Deus, e esperou nele contra toda a esperança, é o que conclui Paulo em Rm 4.18: Abraão, esperando contra a esperança, creu, para vir a ser pai de muitas nações, segundo lhe fora dito: Assim será a tua descendência. Sem esta fé prenhe de esperança e de confiança o povo de Deus não tem como subsistir como um povo justo, porque o justo vive pela sua fé: Entretanto, a capital de Efraim será Samaria, e o cabeça de Samaria, o filho de Remalias; se o não crerdes, certamente, não permanecereis. (Is 7.9)

O Judaísmo teve que enveredar pelo lado intelectivo da fé para conseguir sobreviver em um mundo totalmente helenizado como também lutar contra a apostasia que campeava em Israel influenciada diretamente pelas religiões pagãs dos povos vizinhos. A fé em um Deus único que após a morte pune os incrédulos e recompensa fielmente os justos torna-se o modelo de perfeição para todos os verdadeiros filhos de Abraão. É por esta virtude que os crentes em Deus se distinguem dos ímpios e dos incrédulos. Curiosamente por estas mesmas razões o Judaísmo viria a se tornar uma religião de rituais repetitivos e práticas de atitudes rígidas do que propriamente uma religião de fé, daí esta palavra só ser citada neste testamento uma única vez, pelo profeta Habacuque.

No Segundo Testamento a palavras pistis (fé) é muito mais frequente. Encontramos, pelo menos, duzentas e quarenta citações em seus vinte e sete livros, e pelo menos uma vez na maioria destes. Nos evangelhos Jesus exige que se tenha fé no seu poder para se alcançar uma bênção esperada: Mas Jesus, sem acudir a tais palavras, disse ao chefe da sinagoga: Não temas, crê somente. (Mc 5.36) Da mesma forma que e fé opera milagres, a falta dela impede que eles aconteçam: Não pôde fazer ali nenhum milagre, senão curar uns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos. (Mc 6.5) Embora a fé tenha Deus como foco, para os evangelistas ela está mais intimamente relacionada com a missão de Jesus Cristo, em quem o poder de Deus mais visivelmente se manifesta com intensidade, frequência e de uma forma inexplicável e inédita, até então. Jesus, ao fazer uma pesquisa acerca do que o povo pensava sobre a sua pessoa, indagou os seus discípulos, e isso se tornou uma oportunidade para que eles confessarem a sua fé nele: Mas vós, continuou ele, quem dizeis que eu sou? Respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. (Mt 16.16)

A fé confirmou-se e desenvolveu-se na igreja primitiva em pequenos núcleos de pessoas que atravessavam juntas uma mesma crise, a queda de Jerusalém e a destruição do templo; experimentavam uma única esperança, a confirmação das promessas de Deus que se realizaram na vinda do Messias, e a sua consequente redenção. Desde então se tornou necessário ter fé em um único Deus, e este é o único ponto de aproximação com o Judaísmo, divergindo dele imediatamente, porque tem Cristo como autor e consumador desta fé. Por outro lado, a fé em Cristo é o distintivo de todo cristão, principalmente aqueles que se dão o nome de crentes, uma expressão de fé que nada tem a ver com o atual termo evangélico, pois o real sentido desta fé não é individual, e sim manifestada através de uma comunidade de crentes.

A fé também se tornou um elemento novo e indispensável para a adesão ao movimento iniciado por Jesus. E é pela fé que os que antes estavam excluídos se tornaram também herdeiros das promessas feitas a Abraão. Ser povo de Deus e descendência deste patriarca não é mais uma questão de consanguinidade, mas sim de acreditar em Deus da mesma forma que ele, e manter a esperança, quando todas as esperanças falharem. Ter fé é ultrapassar o limiar crítico de tudo que se vê, de tudo o que se sente e de tudo que as circunstâncias apontam. (continua)

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