O que é PECADO? (no AT)

Sacrifício azteca, código de Mendoza, século XVI
Não se pode dizer que o hebreu antigo imaginava que Deus houvesse selecionado um punhado de atitudes e todas as outras que estivessem fora desta seleção seriam consideradas pecado. Pelo fato da sua concepção de pecado ser religiosa e não moral, pecado para ele era tudo que ofendia ou transgredia as atitudes prescritas nesta seleção. Mas ainda se pode observar vestígios de uma concepção mecânica e material do pecado, como as inúmeras restrições contidas na lei, fato que foi severamente contestado pelos profetas. A narrativa da criação no Gênesis expõe com clareza que a natureza do pecado deriva da ofensa pessoal a Deus. O Gênesis não enfatiza a desobediência em si como a origem do pecado, mas a vontade do homem de rivalizar-se a Deus, de querer ser como ele. Depois desse delito o homem já não pode mais suportar sua presença, deixa para trás tudo que é saudável, corta os vínculos com a fonte da vida e se torna escravo dos seus próprios desejos e paixões. A própria terminologia que o Primeiro Testamento usa quando fala de pecado do homem usa termos como falhar, desviar e não acertar, que é de onde deriva o sentimento de culpa e ocasiona tristeza, aborrecimento e irritação a Deus.

Mas a noção de pecado progride e vai num crescendo até considerar os termos de uma aliança de confiança e obediência a Deus em que a natureza do pecado é transferida para a idolatria e para a apostasia. Como não havia ateus naqueles tempos, o grande delito dos judeus passou a ser a quebra dessa aliança através da submissão a deuses estrangeiros, o que acentuava a negação da sua fé ancestral. Esquecendo-se da aliança o povo pratica a injustiça e a iniquidade contra ele mesmo, o que vem a ser uma grave ofensa moral a Deus. Alia-se a isso também o fato de que além dos atos pecaminosos, a consciência do homem também passa a ser avaliada e os pensamentos pecaminosos tornam-se também alvo das pregações proféticas. Embora muitos destes pecados sejam, pelo Primeiro Testamento, considerados transgressões leves, passíveis de penalizações morais ou financeiras, nada eram diante dos graves pecados como idolatria, feitiçaria, adultério e homicídio, que condenavam o pecador à pena de morta ou a expulsão da comunidade.

A punição pelo pecado também aumenta na proporção da responsabilidade e do número dos que a praticam. Os profetas insistiram em afirmar que as atitudes pecaminosas do povo levariam à erradicação de cidades, de clãs familiares, da própria nação e do povo como num todo. Nem mesmo a natureza ficaria impune, pois os rios secariam, os campos seriam desertificados e os animais extintos, e tudo isso teria como origem o pecado do homem. Mas ainda assim ideia de um pecado original é estranha ao Primeiro Testamento. Em nenhum dos seus textos podemos encontrar a menção de que um castigo pesasse sobre todos os homens em virtude de uma culpa comum, que é o que fundamenta a doutrina de pecado original.

O judaísmo tardio posprofético tende a conceber uma relação do homem com Deus em uma espécie de tribunal. Em termos jurídicos, pelos seus pecados, o homem passa a ser devedor de Deus, e somente este pode perdoar ou manter em aberto esta conta. Este pensamento se expressa principalmente na conclusão de que perdoar pecados era perdoar dívidas. Uma consideração extremamente pertinente, mas que foi habilmente manipulada pela doutrina da retribuição, que vem dizer que o homem pode sim pagar pelos seus pecados, caso dê em troca algo tão precioso para Deus que valha o perdão da sua dívida. Isso mudaria até mesmo a noção primitiva do sacrifício animal, em que o sangue do bode expiatório servia para encobrir os pecados para que Deus não mais os visse, e o banimento do bode emissário para o deserto, para que Deus se esquecesse deles. Através deste demoníaco argumento o homem imagina ter adquirido poder de barganhar com Deus o perdão. Uma relação em que o arrependimento, a penitência e a reparação foram banidos para o esquecimento juntamente com o segundo bode. 

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