Felizes os misericordiosos

Bem aventurados os misericordiosos,
Anne C. Brink (1908-1972) 
Felizes as pessoas que têm misericórdia dos outros, pois Deus terá misericórdia delas também. Mt 5.7

Se até então todas as bem aventuranças citadas dizem respeito à carência ou ao ato de receber, esta definitivamente está ligada ao dar, pois ela está intimamente ligada às
atitudes concretas daqueles que tem fome e sede de justiça. Também é mais uma bem aventurança que extrapola as fronteiras da fé cristã, pois visa abraçar a todos os que em todos os lugares e em todos os tempos encaram a necessidade alheia não apenas com denúncias ou sentimentalismos, mas com a atitude de quem chama para si a responsabilidade de amenizar, quando não conseguem por um fim a esta situação. É uma palavra que é composta pelas palavras miseris, que significa popularmente miséria, e kardia, que significa coração. Se por um lado não é nada difícil concluir que se trata de ação voluntária de um coração sensível a miséria alheia, por outro veremos que não é de forma alguma algo de fácil execução, pois a miséria pode se fazer notar em vários segmentos da vida humana, tais como alimentação, vestuário, alojamento, cuidados com a saúde, solidão, aflição, marginalização, educação e exclusão social, isto se a nossa lista quiser ser sucinta.
Para aqueles que nunca passaram por um período de fome maior do que o intervalo entra as refeições, e para aqueles cuja falta de água é sentida apenas nos racionamentos, os itens da lista citada acima, embora lhes pareçam reais e urgentes, ficam-lhes ainda na esfera da observação. Muitos destes misericordiosos nunca chegaram a experimentar em suas vidas qualquer destas mazelas. Então, porque aceitariam o desafio de ser misericordioso pela promessa de alcançar uma misericórdia da qual nunca sentiu real necessidade? A bem aventurança não fala somente em dar, em ser misericordioso, mas também fala em receber misericórdia. Em receber de Deus, o grande misericordioso, a sua misericórdia, e aqui se estabelece uma questão muito séria. Pois, que misericórdia pode esperar de Deus aquele que é louvado pela sua reconhecida misericórdia? Para respondermos a essa pergunta precisamos antes nos lembrar das muitas vezes que esbarramos na nossa incapacidade de suprir muitas das nossas próprias necessidades. Para respondermos precisamos mudar o foco da pergunta e nos perguntarmos quantas vezes desejamos algo que está além do que é possível ao ser humano. Você já desejou ardentemente trazer de volta uma pessoa querida que falecera. Você se lembra do desespero daquela hora? Pode recordar quando queria fazer algo por alguém muito especial para você e não pode? Pode recordar quando desejou algo mais do que a própria vida? Pode se lembrar de quando desejou algo ardentemente e não conseguiu? O desejo sem o qual a vida não vale mais a pena. Já parou para pensar no que você mais deseja nesta vida? A liberdade? O amor? A saúde? Então é este o tipo de bênção da misericórdia de Deus sobre a qual Jesus está falando. Somente aqueles que exercem a misericórdia para com os outros receberão de Deus o conforto para esta necessidade pessoal. Somente aqueles que mostram avidez de misericórdia poderão sentir a sua avidez pela vida contemplada com a misericórdia de Deus.

Jesus propõe este tipo de relação para que as pessoas possam enxergar com os olhos de Deus a miséria do próximo. Para que as pessoas possam sentir a dor que Deus sente quando um dos seus filhos passa por este tipo de dificuldade. Para que as pessoas que se entregam à sua providência passem a cuidar dos outros na proporção exata com que aguarda a misericórdia de Deus para as suas carências mais íntimas. Temos que ouvir os outros como esperamos ser ouvidos por Deus quando oramos a ele. Este tipo de misericórdia nos custa. Nos custa dinheiro, nos custa tempo e custa a nossa energia, mas isso ainda é pouco, precisamos nos perguntar se Deus espera que estejamos adequados para nos dar a sua misericórdia. Precisamos nos perguntar se temos perdoado tão incondicionalmente como Deus nos perdoa. Temos oferecido a capa, andado a segunda milha ou dado a outra face para abrir o caminho para este próximo? Mais importante ainda, quem é este próximo? O resultado de tudo isso é a satisfação plena e a felicidade completa.

Felizes as pessoas que têm misericórdia dos outros, pois Deus terá misericórdia delas também.

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