Papagaio de pirata

O teu irmão voltou e teu pai mandou matar o bezerro gordo. Lc 15,27
A Volta do Filho Pródigo de Rembrandt
Essa expressão tem vários significados, quase que um para cada região deste país. Normalmente ele é dado àquele sujeito que quer sempre sair na foto, então se coloca atrás das celebridades quando são fotografadas. Mas no Rio de Janeiro, onde nasci e cresci, o seu sentido era bem mais pejorativo do que o de entrudo. Para quem não sabe, eram os mascarados que entravam nas casas das pessoas na época do Carnaval de muito antigamente. Para os cariocas, papagaio de pirata é aquela pessoa que fica falando no ouvido de outra as más qualidades do seu oponente na hora de uma discussão, fomentando mais ainda a questão entre ambos.

Na parábola do filho pródigo nós temos um representante digno de ostentar este título: o servo a quem o irmão mais velho foi perguntar o motivo da festa que seu pai estava dando. Notem que o seu senhor deu-lhe diversas ordens: traga a melhor roupa, calce-lhe os pés com sandálias novas, coloque um anel no dedo dele, por último e não mais importante, mate o bezerro gordo. Em resumo: o servo tinha outros argumentos para expor ao mais velho dos irmãos o real motivo da festa, mas não o fez. Pelo contrário, para acirrar mais ainda o ódio fez absoluta questão de citar justamente o item que era único.

Certamente o pai guardava na casa muitas sandálias e roupas, e era bem possível que tivesse também alguns anéis. Mas o bezerro gordo não, esse só havia um, e que muito provavelmente deveria ser o objeto do desejo deste filho. Afinal era ele quem cuidava do bezerro, quem o tratava a pão de Ló, era quase tão querido quanto um animal de estimação. Talvez não se resumisse a isso a sua má intenção, como bom papagaio de pirata que era, o servo deve ter respondido algo assim: aquele teu irmão safado voltou da orgia sujo e sem dinheiro, e o teu pai mandou matar o bezerro gordo, acho que não era motivo para tanto.

Esta foi a parábola mais extensa que Jesus contou, e ela não está isolada, faz parte de um conjunto de textos chamado de “as três parábolas da misericórdia”. O filho pródigo é a parábola de expõe o clímax do drama da perda. A parábola da ovelha da ovelha narra a perda de 1% de um bem relativo, seria errado supor que a ovelha pertencia a esse pastor. A parábola da dracma descreve uma perda de 10% de um valor essencial, do dinheiro que garante a subsistência. Mas a do filho pródigo supera em muito todos os valores anteriores, porque fala da perda de 100% de um valor absoluto e inestimável. Fala de como um pai consegue trazer de volta para si dois filhos que havia perdidos: um para o esbanjamento e o outro para a usura.

Chamo a atenção para o momento e para o ambiente onde as parábolas são contadas. Se retrocedermos a leitura até começo do capítulo 15 deste evangelho de Lucas, veremos que nenhum papagaio de pirata se fez ausente àquela reunião. Eles em bom número e traziam consigo alguns bons argumentos contra Jesus. Em sussurros maliciosos acotovelavam-se para apontar diversas falhas de caráter que viam em Jesus: ele se mistura com gente de má fama, come com prostitutas, bebe com publicanos, se permite ser ungido por pecadoras. E é aí que Jesus desconversa, muda o rumo da prosa, como se diz no interior. Diante de um tribunal em que era ferrenhamente acusado, no lugar e na hora apropriados para apresentar a sua defesa, Jesus começa a falar de uma situação mais que comum: um homem tinha cem ovelhas e perdeu uma.

Jesus muito sabiamente conseguiu incluir indistintamente todos que estavam presentes na sua breve narrativa. Falou ao coração dos pais que sofreram perdas, falou a filhos devassos e também a filhos de fidelidade interesseira. Mas não deixou os protagonistas da nossa meditação de fora, revelou-lhes a face perversa e inoportuna. Seria bom que cada um de nós pudesse aproveitar o momento para tentar descobrir com qual personagem da parábola nos identificamos nesta hora. Seria proveitoso se usarmos dessa abertura para fazer um auto reconhecimento da situação que cada um de nós está vivendo. Se estamos com o olhar perdido no horizonte na esperança da volta milagrosa de um filho. Se é a hora de cada um de nós cair em si, arrepender-se e voltar atrás. Se agora é a hora para avaliarmos quando o nosso amor a Deus se dá simplesmente pelo que ele é, ou se é pelo que ele pode fazer.

Porém, uma coisa devemos fazer paralelamente a isso tudo. Vamos pedir perdão a Deus pelas as muitas vezes que nos postamos à porta, aquela mesmo que um dia um dia atravessamos completamente arrasados e sem defesa, para impedir que outros também o façam nas suas angústias, jogando-lhes na cara um passado que nós mesmos lutamos para esquecer.

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