Quem é rico para si não é rico para Deus

Parábola do rico e de Lázaro, Leandro Bassano (1557-1622)
A parábola contada por Jesus em Lucas 12.15-21 é tão comum, que na nossa cultura seria considerada um conto, ou como a TV erradamente gosta de dizer: baseada em fatos reais. Diferentemente de algumas outras parábolas que Jesus contou que tem cenários surrealistas, esta parábola nos leva ao fato de que todos conhecemos um tio Patinhas, aquele usurário das antigas histórias em quadrinhos.
É fato também que por várias vezes já nos flagramos pensando e agindo de modo semelhante ao homem rico da parábola. Na certeza dessa total abrangência, Jesus termina a parábola com uma afirmação: quem é rico para si mesmo, não é rico para Deus.


Vamos rever a parábola. O campo de certo homem, que já era rico, produziu com muita abundância. Diante de tamanha fartura, quais foram suas providências imediatas? Destruir os antigos celeiros, fazer celeiros novos ainda maiores, armazenar bens para os muitos anos do restante da vida, e assim poder dizer à alma: descansa, come, bebe e regala-te. Em resumo, um projeto de vida que, mostrando-se egoísta em última análise, é baseado em elementos palpáveis, factíveis e dentro da razão e da expectativa humanas. Mas como cristãos, aprendemos que projetos levados exclusivamente nestes termos não tem muita chance de ter finais felizes. O desenrolar dos fatos não seguem necessariamente a sequência dos nossos planejamentos, por melhor que estes possam ter sido feitos. Nós cristãos, julgamos ser inevitável este desencontro entre projeto e realização, porque entendemos que por trás de tudo o que acontece existe um Deus que é Senhor da História.
Entendemos também que qualquer projeto de vida fundamentado exclusivamente na satisfação pessoal, não pode contar jamais com o aval de Deus. Diante da incerteza da vida surge a pergunta: Louco, esta noite pedirão atua alma. E o que tens guardado para quem será? Antes de prosseguirmos, devemos afastar de vez a idéia de que há por aí um Deus matando pecadores que o desagradam. Aliás, uma leitura mais detalhada do texto, isenta completamente Deus como suspeito da morte do homem rico. O texto diz claramente: esta noite pedirão a tua alma. O sujeito que está no plural na parábola não é Deus e sim os bens acumulados. Ou seja, os próprios bens que acumulou requisitarão a sua alma. Melhor dizendo: seus bens não necessitam requisitar nada, a alma do indivíduo já é confessadamente deles.
Esta parábola serve muito bem para tratarmos de um assunto muito controverso e problemático nas igrejas cristã de hoje, e, pelo que se conhece da História, nas igrejas de sempre: a escatologia. O que vai acontecer no fim? Não se trata aqui de uma aula de apocalípitica, de datar e localizar do Armagedom ou mesmo da segunda vinda de Cristo. Mesmo porque, não existe e nunca existiu ninguém que tenha competência para tratar desse assunto. A palavra é justamente esta, competência. Jesus disse: Não vos compete saber tempos ou épocas que o Pai reservou exclusivamente para si. Vamos tentar aqui de refletir sobre a única escatologia da qual realmente deveremos dar conta, a única que realmente interessa, a única para a qual somos chamados a ter competência: a nossa própria escatologia. Vamos meditar cada um de nós sobre o nosso próprio fim.




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