Cabeça ou cauda?

Aquele que se exaltar será humilhado, porém aquele que se humilhar será exaltado. Mt 23.12 – Lc 14.11 e Lc 18.14
Foto do blog www.retalhosdavidadeumpadre.blogspot.com 
Talvez seja o grande dilema de identidade do cristão de hoje. A despeito de Isaías ter resolvido a questão de forma radical: Pelo que o Senhor corta de ti a cabeça e a cauda, a palma e o junco, tudo num mesmo dia, ainda nos resta uma saída honrosa. Antes do seu nascimento, Jesus estava predestinado a tomar partido na luta entre a exaltação e a humilhação.

O cântico de sua mãe, Maria, já o apresentava como aquele que nasceu subverter valores: exaltará os humildes e despedirá vazios os ricos. E esta característica do ministério de Jesus prima pelo ineditismo, porque se existiu um propósito do qual até o Diabo duvidava, foi justamente esse: alguém que arriscasse seu pescoço na tentativa desta inversão revolucionária. A descrença do tentador no cântico de Maria foi tão grande, que mais tarde ele iria pessoalmente conferi-la no deserto. No momento em que Jesus definia as prioridades da sua missão, ele apareceu para se assegurar que não seria bem assim.

Também, como imaginar que uma pessoa possa querer buscar na humilhação um caminho para a exaltação? A não ser que faça o que o Diabo sugeriu, construa antes para si um pedestal onde possa subir para ser visto e apreciado. Porque não vejo como alguém possa galgar um lugar de destaque com um projeto cuja sina é humilhação e derrota. Por que escolher apenas 12, ficar sujeito a itinerância, depender da caridade alheia para sobreviver, quando uns poucos milagres lhe bastavam? Somente assim dá para entender um pouco da dificuldade que Jesus teve para se anunciar como o Messias, entender o porquê fazia questão absoluta do anonimato e entender os motivos da demora do seu reconhecimento, demora essa que perdura até hoje.

O fato é que Jesus também foi radical quanto a esse aspecto da vida dos seus discípulos. Ele nunca permitiu que uma manifestação extraordinária da misericórdia de Deus servisse de trampolim para promoção pessoal ou mesmo para a divulgação do Reino. Aliás, tais manifestações extraordinárias, que comumente chamamos de milagres, nunca foram garantia de que Deus estava avalizando a situação vigente. Paulo diz justamente o contrário, que Deus mais se manifesta mais onde o pecado é mais evidente: Onde aumentou o pecado, a graça de Deus aumentou muito mais ainda. E diz mais: milagre é sinal para os não crentes. Sinal para os que creem é a profecia, é a pregação da Palavra que serve para exortar, para edificar e para consolar.

Jesus nos ensinou também que uma boa reputação constrói-se ao longo de uma existência, com abnegação e despojamento, mas que para destruí-la, basta apenas um pequeno gesto. Observem o texto: aquele que se exaltar será humilhado, porém aquele que se humilhar era exaltado. Ele diz isso em três ocasiões diferentes. Por quanto precisamos analisar cada um desses três relatos, na tentativa de compreender esse imbróglio no qual Jesus nos meteu.




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