Opção sexual

Ló fugindo de Sodoma, Rafael em 1514
Os que acompanham regularmente este blog são testemunhas de que nunca opinei sobre o imbróglio no qual se debatem atualmente as igrejas neopentecostais e o movimento gay. Já disse mais de uma vez e vou repetir: onde a Bíblia é sucinta eu não me aprofundo. Considero um absurdo teológico combater as premissas do movimento deste grupo minoritário com analogias retiradas diretamente de textos bíblicos, simplesmente por uma razão: não existia o tipo de homossexual que reivindica, que exige direitos e que quer se fazer representar na sociedade durante todo o período testamentário.


Por causa deste ínfimo detalhe, os escritores bíblicos nunca precisaram levantar questões sobre o tema da homossexualidade, que tanto fervilha em nosso tempo, assim como não o fizeram sobre várias outras questões que somente vieram à tona séculos após a sua morte. Clonagem e manipulação de células são exemplos disso. Se formos um pouco mais além vamos descobrir que a palavra homossexual, assim como a ideia de se ter uma opção sexual, nem existiam naquele tempo.

Outro absurdo retirado da Bíblia é o uso da palavra sodomia e do verbo sodomizar para designar a relação sexual entre homens. Uma rápida olhada no texto do Gênesis vai mostrar que a intenção dos habitantes locais não era praticar o ato sexual com pessoas do mesmo sexo, mas sim com uma espécie diferente, posto que os três seres que estavam na casa de Ló haviam sido identificados como anjos. A verdadeira proposta dos sodomitas era impor o poder hegemônico do seu povo sobre qualquer poder que os visitantes viessem a possuir. A própria realização do ato sexual entre homens tinha um caráter iminentemente político. Os vencedores das batalhas faziam absoluta questão de ratificar a sua superioridade sobre os vencidos seviciando-os. Israel na conquista de Canaã não se furtou a praticá-la. Também era uma relação comum entre o imperador romano e seus generais. Dependendo do resultado das batalhas eles recebiam louro na cabeça ou dedo na ...

O episódio de Sodoma e Gomorra registra também um flagrante atentado à imperiosa lei de hospitalidade que é consensual entre os povos do deserto. O profetismo bíblico condenava Israel pelo descaso para com a necessidade dos órfãos, das viúvas e dos estrangeiros, o que constituía, este sim, o grande pecado das cidades da campina, como denuncia o profeta Ezequiel: Eis que foi esta a iniquidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão e próspera tranquilidade teve ela e suas filhas; mas nunca amparou o pobre e o necessitado. (Ez 16,49)

Como se vê, não há qualquer referência que possa ser associada à homossexualidade neste texto. Por outro lado, viver e prosperar em locais inóspitos, como são as campinas ao sul do Mar Morto, requer muita habilidade e constante atividade. Imagem de uma civilização que não combina com o conceito de devassidão e orgia que se apregoa sobre àquelas cinco cidades.

Não se pode dizer também que os derrotados, que serviam a luxúria dos vencedores, tiveram oportunidade de fazer uma opção sexual. O sexo lhes foi imposto pelo poder das armas. Da mesma forma, entre as religiões pagãs que habitavam o entorno de Israel, os jovens e as jovens habitualmente prestavam serviços sexuais nos templos, como se hoje presta serviço militar. A formação de meninos prostitutos, que é uma das traduções da palavra malokai, que na Bíblia foi traduzida por efeminados, foi tenazmente combatida pelos profetas em Israel, donde se conclui que a prática era muito comum entre o povo que se dizia de Deus. Precisaríamos também abordar o tema sob o ponto de vista da civilização grega, onde meninos de doze ou treze anos eram entregues a tutores mais velhos, que lhes ensinavam bem mais do que literatura e filosofia.

Para encerrar temporariamente esse assunto, gostaria de mencionar que a única opção sexual citada na Bíblia refere-se aos eunucos. Em uma situação bastante embaraçosa, Jesus diz que havia três tipos de eunucos: os que foram feitos eunucos pelos homens, os que nasceram eunucos e os que se fizeram eunucos pelo Reino de Deus. Embora seja este também um tema também sucinto nas Escrituras. Vale lembrar que Jesus não fez apologia à abstinência sexual nem tampouco à castração, mas a uma decisão voluntária e pessoal daquele que quer prestar um serviço exclusivo, bem vindo, e, de certa forma necessário, para a plenificação do Reino de seu Pai.

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